Inveja

O indivíduo que é ajudado por alguém nem sempre responde com a devida gratidão amorosa. O que retorna é um ódio acionado por uma inveja primitiva.

“Você tem o que eu não tenho! Por isso, o invejo e quero o que vejo em você. O que eu quero me faz falta, e é o que vejo em você. Como eu poderia não te odiar, se vejo em você um sucesso que em mim se apresenta sob o modo de um fracasso. Seu bem é o meu mal, sua abundância é minha penúria, sua generosidade é minha usura! E, ainda por cima, você quer me ajudar! Seu gesto de solidariedade testemunha minha precariedade; logo, eu o odeio. Você é o espelho avessado da minha própria fraqueza. Nele, me vejo frente às minhas cicatrizes, minha vergonha, pois, nele reconheço a criança invejosa que eu teria sido.

Como reagir frente à minha própria impotência, lidar com o fato insuportável de necessitar da ajuda de um outro, ali, onde eu mesmo deveria usar minhas próprias ferramentas para alcançar minhas conquistas? Sim, porque todo mundo pode, de algum modo, realizar alguns sonhos. Mas isso não é sem empenho, perseverança, confiança em si mesmo.

Ao me ajudar, você me diz, nas entrelinhas, que sou um fraco, um incapaz, alguém sem recursos para, sozinho, ter algum sucesso. Por isso, eu o odeio! Essa é a verdadeira razão do meu ódio. Sou engolido por um vulcão de decepções que me consome, diante da sua ajuda”.

Qual a razão dessa suposta incoerência? O sentimento de inveja, tal como o ciúme, é algo que todos temos, em maior ou menor grau. A verdade é que o sujeito, o humano, não tem condições de se declarar como sendo um ser invejoso. Por vergonha, ele se esconde, na medida em que isso é visto como algo muito feio aos olhos do outro. Mas a posição do sujeito invejoso traz um benefício para quem tem esse sentimento, na medida em que atualiza um prazer no sofrimento.

Pessoas mais saudáveis, ou seja, emocionalmente menos machucadas, convivem bem com os efeitos desse sentimento. Podem até vir a fazer um bom uso dessa constatação. Outras, não, pois pelo fato de estarem sob os efeitos massacrantes de algumas patologias, por estarem aprisionadas a um gozo mortífero, elas sofrem profundamente os efeitos catastróficos de uma violência sem fim. Esse sofrimento é vivido, mas não é pensado.

A inveja, essa paixão demoníaca, se municia de um ódio rancoroso. O ser humano, desde que ele vem ao mundo, é estruturado pelas mazelas tanto da inveja quanto do ciúme.

O sujeito invejoso está cristalizado numa posição infantil de só se importar com a coisa do outro: para invejar o que o outro tem, ele se esquece de si mesmo! Por essa razão, o ser invejoso não avança muito em sua vida, tanto no campo do amor quanto na profissão. Ele necessita glorificar o fascínio de uma criança cristalizada do invejoso. A inveja impede o acesso ao desejo, uma vez que este é movimento, caminho de conquistas, meio de ultrapassar sofrimentos.

Se Deus existe, ele não dá nada de graça, não é mesmo? Ele quer que cada um pense, que se questione, que aprenda a desejar. Como diz o ditado popular, “muita esmola, o santo desconfia”. Os culpados gostam de ajudar ao próximo, mas, na realidade, eles estão ajudando a si mesmos. Ele quer a libra de carne do ente ajudado. Mais, ainda, quer, no mínimo, a submissão do devedor! Tal como no sistema bancário, que tão bem conhecemos os efeitos, os juros são quase sempre impagáveis. Foram feitos para perpetuar a dívida.

Vejam bem, não existe em nosso psiquismo uma separação clara e nítida daquilo que seria o normal e o patológico. Todos temos sentimentos contrariados, tintos de uma loucura virtual, santos e demônios se amando, dormindo na mesma cama. O amor e o ódio são amantes na alegria e na tristeza.

As heranças malditas, que os próprios pais carregam de suas histórias, adormecidas ou desconhecidas, configuram o dito “cada cabeça uma sentença”. A transmissão de pais para filhos é daquilo que não é pensado.

A inveja, afeto que causa vergonha, é a marca de um sentimento primitivo, na origem da relação da criança com o semelhante: o ódio!

Médico, Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado em Psiquiatria (UFRJ); Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Brasília, Rio de Janeiro e Vitória; Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP); Editor-chefe da Companhia de Freud Editora

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