Por André Delacerda

Corcovado a Noite por Julio Aguiar Se perguntarmos a um morador do Rio, que imagens ele associaria ao ouvir pronunciar a palavra Rio de Janeiro; assim eles nos diriam:

– Ah… O Rio de Janeiro lembra…

Os mais animados associariam ao Rio a imagem do samba, do carnaval, a alegria e espontaneidade do povo carioca; os mais ousados visualizariam o gingado das mulatas e a beleza e sensualidade da mulher carioca; para os mais pessimistas, o Rio é sinônimo de caos, e lembra violência. Mas uma coisa é certa, a imagem mais unânime entre todos, e que vem as nossas mentes logo quando pensamos no Rio, em qualquer que seja a circunstância, é a do Corcovado com o Cristo Redentor de braços abertos.

Poucas são as cidades no mundo, que tem este privilégio, o de ter um lugar tão especial e sagrado. Quem sabe uma espécie de “Olimpo” em meio ao caos urbano de nossas cidades. E aqui o “Olimpo carioca” é personificado pela figura da impotente montanha do Corcovado, que tem no cume rochoso o famoso Cristo Redentor – uma das 7 maravilhas do mundo moderno -, a olhar diuturnamente a cidade dionisíaca, que nos remete aos prazeres da vida. Este é cercado pelo manto vegetal da Floresta da Tijuca, que vez ou outra perde um pedaço da sua exuberância, pela insistência insana do homem em avançar sobre ela; sua cor verde intensa nos inspira uma esperança continua.

Quem ao transitar pela cidade, já não se vislumbrou olhando para o alto, mesmo que por instantes, o imponente Corcovado com o Cristo Redentor. Se já não o fez, deveria passar ao hábito, pois quem sabe se de lá do alto, a imagem não tem muito a nos dizer.

E seria mais ou menos assim…

Você sai apressado pela manhã rumo ao trabalho e pega um daqueles engarrafamentos enormes e que irrita tanto, ao olhar pela janela do automóvel para o Corcovado, o mesmo diz:

– Tenha um pouco de paciência, eu sei que é difícil, mas você conseguirá chegar daqui a pouco ao destino. É assim mesmo, se fabricam tantos carros, deu nisso, engarrafamentos. Ainda tem aqueles que na direção insistem e supostamente acreditam ser mais espertos e acabam atrapalhando tudo.

Ao chegar por via marítima, o mesmo declara aos visitantes que o observam ao longe:

– Sejam bem vindos. Esta cidade também é sua. As águas da Guanabara, mesmo com a interferência da famigerada poluição, lhes trarão com segurança, bem perto de mim.

Para o executivo que fitar da janela do escritório o ritmo frenético do nosso centro financeiro, a imagem aconselharia:

– Acredite! Hoje certamente os negócios serão bem melhores do que ontem. Mas lhe dou minha opinião. Se é que você ainda me escuta. Agende alguns instantes do cotidiano e, curta um pouco do visual e das belezas que a cidade lhe presenteia diuturnamente, certamente voltará aos negócios, muito mais bem disposto com sobrevida para o coração já tão estressado.

Para você no assento do ônibus, em meio ao quilométrico engarrafamento, após dia exaustivo de labuta, quase enlouquecido com o barulho ensurdecedor das buzinas, ao ver o Corcovado talvez ouviria:

– Tenha paciência que isso logo vai passar. Um dia você vai ter mais linhas de metrô, quiçá um trem bala modelo belga ou japonês (que luxo!) para voar de volta para a patroa e a meninada.

O impaciente motorista que não para de buzinar, ao espiar pela janela do automóvel, certamente ouviria em eco:

– Ei! Seja educado. Seja mais tolerante, você não está só. Pense! O senhor não está só no mundo.

Ao doente no leito do hospital, olhando para o Corcovado iluminado, a mensagem seria a seguinte:

– Tenha fé, só assim a melhora virá. Mesmo com os problemas do dia-a-dia, preços dos planos, ainda existem profissionais, com quem você pode contar.

E mesmo aquele que anda de metrô e por trafegar nos subterrâneos, não teria a oportunidade de vislumbrar a majestosa montanha, o Corcovado, arruma um jeito de dizer, nos instantes de entrada e saída dos passageiros nas estações:

– Oi! Olá! Eu jamais esqueço de vocês. Mesmo escondidos e espremidos na hora do rush.

Aos viajantes de via terrestre seria mais sutil:

– Sejam bem-vindos. O Rio apesar de tão povoado, sempre arruma lugar para acolher mais um.

E aos que vem por via aérea, e deparam com a imensidão de nuvens brancas, somente visualizando a ponta do Redentor sobre as mesmas, com a imagem de braços abertos, dirá:

– Em instantes vocês terão a oportunidade ímpar de ver e vivência uma das cidades e povos mais sedutores que vocês já possam ter imaginado.

Bem que o Corcovado seria o lugar sagrado e predileto dos deuses – com todo o respeito aos vários locais sagrados no mundo – e ali no alto da montanha estariam Alah, Odim, Jeová, Buda, Deus, Krishina, Oxalá.

De modo ecumênico, a imagem do Corcovado semi-envolvida pelas nuvens, está numa perfeição quase apolínea.

Que o Corcovado avistado da sua janela, mesmo pequeno e ao longe, seja a luz de onde se renovam esperanças para com a vida, e crença de que está é sem dúvida, umas das cidades mais maravilhosas do mundo para se viver.

Porém, foi exatamente em um destes instantes de conversa que entidades míticas como a Esfinge que dizem que habita a Pedra da Gávea, o Índio e os escravos do quilombo de outrora lá nos Dois Irmãos e as imagens do Frade e da Freira lá pros lados da serra, que se ouviu o curioso diálogo.

– E você Redentor, não se cansa de ficar nesta posição?

E o Cristo de pedra na sua sapiência, respondeu a indagação:

– Eu espero a todos de abraços abertos, porque está diante dos meus olhos a preciosa maravilha que criei: o Rio de Janeiro.

Foto Corcovado a Noite por Julio Aguiar

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