Beijo de Açúcar por Fábio Pinheiro

Por onde andam aqueles beijos que fazem o mundo revirar? Parece que aqueles lábios que viviam tinto de desejos já não conseguem mais falar a linguagem do amor: “Meu Deus, eu nem me lembro quando foi a última vez que eu e meu marido realmente nos beijamos”.

Hoje, mais do que nunca, evidencia-se uma crescente inibição sexual na relação dos casais e aqueles beijos ardentes que já existiram, quase não existem mais. No lugar daquela coisa gostosa ao inicio de uma relação homem e mulher restou somente um esfriamento progressivo do erotismo, ocupado pela praticidade do dia a dia de uma vida em família: “Eu me queixo, e ele diz que sou insatisfeita, que devo entender que ele tem sérios problemas no trabalho e que isso vai passar. Lógico, penso que ele tem alguém fora mas, procuro apagar esse pensamento. Ele é muito rígido, cabeça dura! No início haviam desejos, sentíamos forte atração um pelo outro, sentíamos tesão. Hoje, estamos distantes um do outro; parece que vivemos um abismo de inibição, medo de nos tocarmos, não sabemos mais beijar. Eu tento falar sobre o assunto e ele diz que ele é assim, que devo aceitá-lo como ele é. O que fazer? O fogo que existiu um dia se apagou, parece que não restou fagulha alguma, são cinzas e nada mais”.

Tem sido assim, no campo do amor, vamos nos transformando em verdadeiros autistas pois uma proibição doentia promoveu uma paralisia do bom uso do erotismo, na vida íntima de um casal, restando o território do pudor que fala, através de lábios que não sabem mais beijar.

Lábios que não sabem mais beijar!

O casal de hoje, encontra-se impedido em seus desejos ardorosos, criou-se uma muralha, uma barreira, uma proibição: lábios que se tornaram emudecidos, que se perderam no tempo de um desencontro, envoltos na penumbra de uma solidão seca e muda. Lábios que não se beijam mais, mas que ainda sentem falta, que necessitam encontrar o caminho de um retorno. Voltar mais uma vez a se encontrarem no cenário de volúpias enigmáticas. “Parece que nossos lábios secaram com o nascimento dos filhos. Hoje, não existe mais namoro entre nós dois, sexo com amor, restaram apenas obrigações conjugais. É lógico que, vez por outra, nossos lábios se esbarram, se roçam, mas são meras formalidades. Sinto que minha vida de casada é uma vida sem desejos. O que de verdade vivemos é a frieza de algo que já existiu entre nós dois”. Parece mesmo que existe um medo de desejar, medo de desejar e se fazer desejar pelo outro. São lábios famintos, mas que não se alimentam, não se atrevem, estão ressequidos, anestesiados, depressivos, anoréxicos de um desejar erótico. São lábios que se aposentaram, precocemente, de sua intimidade sexual!

E cada um, homem e mulher, deve sempre questionar a relação, insistir, resgatar mais uma vez, a estima adormecida no ato de beijar. O problema é que o tempo numa relação passa e este fato, aparentemente corriqueiro, torna-se desapercebido, não é levado em conta: lábios que não se beijam mais, lábios que esqueceram o caminho do bom encontro, pois, por alguma razão, eles próprios se destituíram de uma vida de desejos. Não sabem mais andar, falar, gozar. Lábios secos, sem gosto de vida, lábios ressentidos, aprisionados às emoções esquecidas, lábios adormecidos porque sofrem os efeitos de seus próprios esquecimentos. Lábios que não querem mais saber, eis a questão!

É verdade, lábios que não sabem mais beijar, se amar, se fazer desejar. Eles não sabem mais porque certamente perderam, em sua memória libidinal, as insígnias eróticas do seio materno! O seio materno se faz desejar no divino encontro com a sensualidade dos lábios de filhos. Uma espécie de bênção divina que autoriza um saber que sempre se sabe no ato de beijar. Isto é interessante porque é o olhar e a voz da mãe, sob o crivo da palavra do pai, que vai significar os desígnios de todos os sentidos que passam a habitar os lábios, em sua magia de beijar.

O beijo, numa relação amorosa, é fundamental. Não se trata de um simples encontro de carnes prenhes de erotismo, embora isto seja fundamental. Mas o beijo, é o máximo de comunicação sobre como andam as coisas num casal. O beijo diz tudo e um pouco mais, ele é uma espécie de termômetro da relação amorosa; se está quente, fria, ou morna, ele não engana.

José Nazar, Médico Psiquiatra e Psicanalista.

doutorjosenazar@gmail.com

Médico, Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado em Psiquiatria (UFRJ); Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Brasília, Rio de Janeiro e Vitória; Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP); Editor-chefe da Companhia de Freud Editora

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