Crônica sobre Café.
Café crônico

Café suspenso é um café que alguém deixa pago para uma outra pessoa qualquer que não possui as condições de comprar. No momento em que escrevo essa crônica, em meio a um isolamento social que ocorre devido a uma pandemia, tomando um café, ao olhar pela janela, a impressão é que a vida está suspensa. O café está quente e saboroso, mas faz falta convidar alguém para tomar comigo, sentar na cadeira de frente e conversar.

Café tem características de reunião. Uma boa reunião tem que ter café, seja de trabalho ou de aniversário. Tanto profissional quanto com qualquer pessoa. Ou será que estou viciado em cafeína? Não, não é nada disso. Café vai além desse composto químico, não é possível reduzir dessa forma, pois essa bebida vem recheada de um mundo de tradições e interligações entre passado, presente e futuro. E não é simplesmente porque estudos comprovam que faz bem para a memória.

Café suspenso é um emblema de solidariedade. Porém, essa bebida estimulante é símbolo também de socialização. Aquele convite que é uma desculpa para uma conversa, sabe? Esse líquido preto, mais claro, mais escuro, com chocolate, ou espuma, ao leite, tem sabor de urbano, mas nasce no rural. O aroma de um café preenchendo um ambiente lembra a jornada da vida, do cotidiano corrido, do metrô cheio, ou de um momento de parar, sentar e apreciar a vista. Aquela fumacinha de um café quentinho subindo é pura poesia.

Também é uma poderosa ferramenta para acordar do sono, pois, magicamente, transforma zumbis em seres humanos novamente. Quase um elixir místico! Tem cheiro de infância, conecta famílias e memórias de múltiplos tempos. Sempre lembro do meu avô, com sua espessa barba branca, molhando o pão francês no café. Todo santo dia pela manhã. Aí, logo depois, recordo meu pai fazendo o mesmo. Tento ser diferente e não repito o gesto. Ainda por cima, tomo o café puro, sem açúcar. Mas tomo o café, todo dia. Como meu pai e avô faziam, e quantos antes deles? A cada gole, meu corpo desperta e a mente acelera. E o espírito sente uma energia inebriante, talvez advinda de meu pai, meu avô, antepassados e ancestrais.

Ancestralidade. Sim, o café tem mais essa virtude. Parece que está impresso no DNA, assim que o aroma chega até as narinas durante a inspiração, é como provocar o inconsciente, uma aura parece expandir ao redor. Aqui está ao meu lado, esse companheiro tão amado. Meu e de tantos outros. Não dá para ser egoísta, o café é para unir. Só que não tem como escapar das surpresas da vida, não temos controle. Algumas coisas acabam, umas começam; e outras ficam em suspenso. O tal do destino gosta de improvisações. Tudo bem, estou pronto, mas deixa só eu tomar meu café primeiro.

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