Foi publicada no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro nesta terça-feira (19/11), a Lei ° 8.623/19 de autoria dos deputados André Ceciliano e Waldeck Carneiro, ambos do PT, que incluí o marinheiro João Cândido Felisberto no Livro de Heróis e Heroínas do Estado do Rio de Janeiro. Criado pela Lei 5.808/10, o livro já tem os nomes de Dom Hélder Câmara, Leonel Brizola, Tiradentes, Teixeira e Souza incluídos.

O reconhecimento é pela liderança de João Cândido, chamado de “Almirante Negro”, a Revolta da Chibata (1910) que teve o objetivo de por fim aos castigos físicos da Marinha brasileira que punia seus soldados com chibatadas.

O estopim foi a brutal punição de 250 chibatadas ao marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes. Inspirados pela Revolta do Encouraçado Potemkin, ocorrida na Rússia em 1905 e liderados por João Cândido os marinheiros em plena Baía de Guanabara, assumem o controle dos encouraçados Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul exigindo do presidente Hermes da Fonseca o fim dos castigos físicos e psicológicos. Após o Rio de Janeiro – capital da República – parar por seis dias, o presidente Hermes da Fonseca garante a anistia dos revoltosos, o fim dos castigos e a Revolta chega ao fim. Um mês depois, João Cândido e mais dezessete marinheiros foram amontoados numa estreita cela da Ilha das Cobras, por onde a luz e o ar tinham dificuldade de penetrar. Naquela noite, o comandante do Batalhão Naval levou consigo a chave da cela, enquanto soldados jogavam cal diluída por baixo do portão a fim de desinfetar o lugar.

Quando a água evaporou, a cal transformou-se novamente em pó, penetrando as narinas dos marinheiros, que gritavam para que a porta fosse aberta. Aos poucos, segundo João Cândido (em depoimento ao MIS), os gritos foram sendo silenciados, e dezesseis deles morreram asfixiados. Covardemente, o médico registrou “insolação” como causa mortis. Sobraram somente o líder da Revolta e mais um marinheiro. João Cândido ainda permaneceu preso por dois anos, incomunicável, tomando-o grave depressão. Foi internado no hospital psiquiátrico, por ouvir os gritos dos seus falecidos colegas e ter visões. Retornou ao presídio até ser liberto e desligado da Marinha. Passou seus últimos anos de vida no município de São João de Meriti em uma casa construída pelo ex-governador Roberto Silveira e vendendo peixes na Praça XV. Morreu pobre em 1969, no Hospital Getúlio Vargas e foi enterrado sob escolta no Cemitério do Caju. Se a Armada hoje, tem guarnição com toda a palamenta necessária a bordo de nossos navios, agradeçam ao saudoso João Cândido Felisberto, que lutou por condinções dignas de trabalho e serviço a bordo dos navios a vapor.

O reconhecimento no mês da Consciência Negra é tardio, cinqüenta anos após sua morte e mais de cem anos após a Revolta da Chibata, mas tem seu simbolismo pelo resgate histórico, aos movimentos sociais e negro. Enfim, um dos maiores heróis brasileiros do Século XX, não vai ter apenas “as pedras pisadas dos cais” – versos de João Bosco e Aldir Blanc – como monumento. Salve o Almirante Negro!

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