O nome dela é Maria. Mais uma entre as mais de 11 milhões de Marias deste país. Esta da qual vou lhes falar é carioca, de Laranjeiras. À candura do nome Maria, seus pais quiseram agregar a beleza da flor, e assim surgiu Maria Flor. Não sei de onde tirei essa ideia, mas essa moça tem um quê de Iaiá Garcia. Os leitores de Machado já sabem a quem me refiro; aos demais, informo que Iaiá é uma das heroínas machadianas: uma moçoila “delgada e travessa”. Maria tem os olhos macios e honestos (não dissimulados como os de Capitu), o rosto fino, o nariz bem feito, a boca generosa, os cabelos pretos e encaracolados que ela traz, caprichosamente, em desalinho.   

Afianço que não é intenção deste cronista enaltecer os atributos físicos da moça, até por uma questão de segurança, pois sou casado com mulher brava e tenho pele sensível. Além disso, o marido dela, mesmo que seja manso, pode tomar-me por mal-intencionado com esses elogios rasgados. Fique claro que o propósito aqui é outro. Descrevi brevemente a Flor das Laranjeiras no primeiro parágrafo para que vocês vejam como as aparências enganam. O nome angelical e as feições delicadas escondem a mulher impetuosa que tem causado furor no Instagram ao declarar abertamente as suas convicções políticas.

Maria é uma excelente atriz. A fala, o gestual, a presença cênica são as ferramentas de que ela se vale para expor seu pensamento, sua indignação, sua revolta diante da hipocrisia e insanidade que se instalaram no Brasil. Talento pra isso ela tem de sobra, mas não é fácil. É preciso decisão, atitude, desprendimento, coragem para se expor publicamente à adoração ou à execração. Nos seus vídeos, a Flor se despe da sua serenidade. Como num transe, ela enrubesce, transpira, se descabela, sofre. Usa todos os seus recursos cênicos e fisiológicos para que as pessoas entendam o óbvio: o bolsonarismo é uma doença, uma seita nefasta. Todo o esforço parece inútil.

Os comentários nos vídeos passam de 6 mil. Pró-Maria e anti-Maria. Esses últimos acusam-na de louca, desequilibrada, maconheira. Mandam-na para Cuba, para a Venezuela. Outros dizem que ela está desesperada porque perdeu os milhões (isso mesmo, milhões) da Lei Rouanet. Há uma classe especial, os puritanos: estes se escandalizam com o linguajar chulo e a “boca suja” da atriz. Que horror! Tirem as crianças da sala! Engraçado que, há poucas semanas, o presidente deliberadamente ofendeu a progenitora de jornalistas e ainda falou em lhes introduzir latas de leite condensado no reto. Que descortesia, Excelência. Talvez falar impropérios seja uma prerrogativa apenas dos homens simples, não de atrizes esquerdopatas.

De minha parte, expresso meu apoio incondicional à Maria. Desejo que a voz da Flor seja o arauto de outras tantas Marias deste país. As Marias sem internet, sem jornal, sem comida, sem casa. As Marias carvoeiras, quilombolas, indígenas, as quebradeiras de coco, LGBT. Que ela seja a voz de todas as minorias desprivilegiadas por esse governo desumano e hipócrita que governa para o capital e não para o povo. Desejo que ela continue sendo essa Maria que não se cala, que não vai com as outras, que não se corrompe. Toda a minha admiração à eloquente Flor do Rio, culta (e inculta quando precisa), mas sempre bela e corajosa. Essa Maria me representa.

*Luciano Alberto de Castro é cronista e professor da Universidade Federal de Goiás

4 COMENTÁRIOS

  1. Pq este diário tão util da essas derrapadas à esquerda de vez em quando?
    ” revolta diante da hipocrisia e insanidade que se instalaram no Brasil”
    Não entendi, antes tava tudo ok, professor?
    Eu não vim apedreja-la ou acusa-la de ganhar milhões e bla-bla…me detive a comentar apenas pelo cansaço da ousadia da esquerda em se autointitular defensora de pessoas as quais não conhece; de insistirem em lutar por causa que não refletem as necessidades das milhares de pessoas desamparadas pelos sucessivos governos, a esquerda ou a direita – se é que houve direita, já que muitos a confundem com conservadorismo.
    Enquanto o pobre esta sufocado no trem, sem atendimento no hospital, sem escola decente para ao menos ter a esperança de dias melhores para os filhos, o esquerdista tá com seus moinhos pensando piamente que sua luta é pelos pobres. Sugestão – peguem o Japeri às 18.00 na Central, vão até Queimados, nem precisa chegara a Japeri não, e vão ouvindo o povo conversar…senta no banquinho de concreto aqui do calçadão de Bangu e ouçam as demandas do povo…e, se por acaso não casarem com vossos moinhos, não achem que vão convencer as pessoas a aderirem às suas lutas e abandonarem as delas, pq as do cotidiano são reais e o pão à mesa demanda trabalho!

  2. Ela não pode ser arauto de outras Marias, porque as outras Marias são pobres e humildes, já a Maria Flor é rica e soberba! Vejamos, com as informações disponíveis na internet sabemos como tantos artistas famosos conseguiram ser tão ricos, mas a fonte secou, essa Maria Flor não representa ninguém, a não ser a classe abastada de burgueses ferozes, do ódio do Bem. O que essa militância agonizante de artistas que atacam Bolsonaro está sofrendo é a crise de abstinência ao dinheiro público! hoje, com o presidente Bolsonaro, houve reformulação da concessão de benefícios da Lei Rouanet de Incentivo Tributário à Cultura, que AGORA está cumprindo critérios estritamente técnicos e alcançado quem realmente precisa, os pequenos produtores culturais e artistas que realmente necessitam de apoio, e não mais os super-ricos, abastados, famosos, porém, decadentes e chorososos por perderem dinheiro fácil.

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