Recentemente, aqui no próprio DIÁRIO DO RIO, foi exposta uma opinião editorial e apoio ao desfecho do sequestro de um ônibus, com reféns, na Ponte Rio-Niterói, o qual levou a um imenso nó no trânsito metropolitano e virou tema de acalorados debates nas redes sociais, nas casas e nas rodas de bar.

O editorial aplaude a postura de Wilson Witzel e seu combate à criminalidade que, de fato, controla territórios no Estado do Rio de Janeiro. Toca, brevemente, em algumas críticas à atual conduta, mas não se aprofunda em nenhuma delas. E é por isso que eu, dentro deste espaço democrático, venho discordar por completo da análise e dizer que Witzel continua sendo uma ameaça à segurança pública do Rio de Janeiro.

Witzel construiu uma personagem que não lhe cabe: a de um supremo líder militar operacional. Após restaurar o uso da faixa de governador, algo que nem os presidentes usam com tal frequência, Witzel agora também se apresenta como policial-general, com uniformes e demonstrações simbólicas de poder.  A realidade, contudo, é que se trata de um fanfarrão, que não tem vigor físico nem formação tática para posar como operacional. E, ao comemorar a morte do sequestrador como uma conquista de campeonato de futebol, agiu de forma despreparada que não cabe a alguém que arroga para si a função de supremo comandante das forças policiais.

Um governador efetivamente operacional seria, como qualquer militar que tem experiência de campo, tático e discreto. Witzel é apenas um fanfarrão que posa de entendido. Fala mais que o necessário, não tem conselheiros de imagem, apela para o populismo. Esse velho populismo

Qualquer pessoa de boa fé entende que, em situações de crise e com reféns, é possibilidade a ser tratada pela polícia a eliminação do criminoso após todas as tentativas de negociação pacífica terem falhado. Há quem diga que tais tentativas não haviam sido esgotadas e que tal morte de uma pessoa claramente doente mental poderia ter sido evitada. Infelizmente, agora é tarde para discutir tal assunto.

A postura de um estadista decente, com instinto republicano, seria a de tratar o assunto com seriedade, sem paixões ou arroubos de ocasião. O Estado cumpriu sua função em salvar vidas. Mas o Estado deve uma resposta a todas as falhas que cometeu para que a situação chegasse a esse ponto. Por exemplo: o acesso a armas e a réplicas verossímeis das mesmas, que estão proibidas há tempos; a demora em operacionalizar a polícia para uma pronta resposta à crise e a falta de inteligência policial para antecipar ações de combate em meio às casas de pessoas comuns, como são os tiroteios típicos não só em favelas mas em zonas de periferia em geral. Obviamente, a culpa recai sobre administrações anteriores também. Mas como representante do Estado, o mínimo que se espera de um governador é lamentar e propor que situações como essas ocorram novamente.

Continuar apostando numa estratégia de confronto armado cada vez mais intenso sem o mínimo de preparo e inteligência para atacar o mal pela criminalidade pela raiz é, no mínimo, imprudente. Witzel teve sorte, ao comemorar a morte de um sequestrador que, na prática, era um doente psiquiátrico sem experiência de bandidagem. Mas Witzel também teve muito azar, pois confrontos policiais em passado recente mataram seis pessoas inocentes numa só semana. Esse detalhe é convenientemente esquecido na narrativa de nosso governante.

Luiz Coelho
Luiz Coelho é planejador urbano, sacerdote anglicano e artista visual. Tem formação em Engenharia Cartográfica (IME), mestrado em Informática (UFAM) e é doutorando em Planejamento Urbano e Regional (UFRJ). Também é formado em Teologia pelo SETEK, com doutorado em liturgia por Sewanee: the University of the South. É servidor público municipal, atualmente lotado no Instituto Pereira Passos e serve a Paróquia Anglicana São Lucas, em Copacabana. É membro filiado ao PSOL.

4 COMENTÁRIOS

  1. Concordo com o texto e achei desnecessária a postura dele em relação aos brados de vitória ao descer na Ponte. Fora de contexto. No entanto, o governo Witzel tem quebrado muitos padrões e paradigmas institucionais e culturais deste Estado como nunca visto antes em nenhum governo. O combate a criminalidade tem sido eficaz, você consegue sentir isso nas ruas. Portanto, considero este governo positivo. Desde a operação Centro Presente as coisas mudaram. Se tem uma razão pela qual o Rio criou esse paradigma de cidade perigosa foi por causa do completo descaso de governos anteriores que nunca fizeram nada. E felizmente, essa cultura de Rio de Janeiro de traficantes, de assaltos, de perigo tem morrido e apagado dia após dia. Apesar de concordar com o combate a criminalidade, sou contra a matança de inocentes que moram em periferias. E seria muita ingenuidade nossa pensar que os bandidos são somente traficantes em morros que usam sandálias de dedo. Há bandidos piores e que ninguém faz nada para os combater: os engravatados de Brasília que ocupam os altos cargos do governo. Outra ingenuidade nossa é pensar que somente combatendo a criminalidade vamos melhorar. Este governo está fazendo isso muito bem, porém, é necessário também investir em criatividade, educação, cultura, no turismo e mais qualidade de vida para todas as pessoas. Quem sabe um dia cheguemos lá.

  2. Disse muito bem!
    E a chave de ouro da bestialidade da mentalidade do Witzel foi afirmar que promoveria o atirador.
    Onde já se viu? Um agente público, que teria cumprido sua função – nada mais que isso – ganhar uma promoção?
    Só no Brasil!!!
    É assim na caserna dos militares brasileiros… que são promovidos de posto em posto sendo o país com mais oficiais e alto oficialato em proporção de tropa no mundo comparativamente com nações em conflito mundial.
    Sobre a militarização das forças estaduais, está mais do que na hora de mudar isso.
    As forças auxiliares deveriam ser tornandas forças civis, com exceção de alguns de seus grupos (como o Choque e o Bope).
    Infelizmente, no entanto, vemos até mesmo a Guarda Municipal seguindo esse modelo que molda o perfil de seus agentes ao nível de cachorrinhos a serviço da violência pró-elite governante e contra as massas e grupos em mobilizações.

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