Foto: O Navio Negreiro, William Turner

As obras de arte, por costume, suscitam um sem número de imagens; e imagens sempre têm algo a comunicar. Quando somos atraídos até alguma criação de um artista que apreciamos ou por quem temos alguma curiosidade, significa que um efeito de magnetismo se fez. O que o artista tem a dizer ou o que diz aquilo que o artista tem a dizer chama-se poética.  Sem grandes complicações, é possível afirmar que uma poética define um material e uma linguagem que se expressa por meios plásticos, verbais, gestuais ou rítmicos. O material é a coisa informe que o artista se apega, apoderando-se de sua textura, cor, peso, geometria, sonoridade, iluminação e profundidade a fim de explorar esses atributos até onde é possível. Ao passo que a linguagem é o conjunto de sinais que dão sentido ao que o material, em sua inépcia, não pode oferecer. Graças à linguagem, um material, que poderia ser desperdiçado na natureza, torna-se arte.

O papel da arte é significar o material da natureza – não importa qual! O que nos espanta nas obras de arte da história não é propriamente a beleza que se depreende dali; sentimos a beleza da obra, mas algo provoca isso – que não é “a” obra, mas algo na obra. A poética é que nos comove em um artista; é constatarmos na obra algo de significativo que se comunica a partir dela; significar é tornar o que não tem valor, o que existe apenas por existir, por pleno gozo do estado de natureza, em algo que passa a ter alguma relevância, algum valor além de sua mera existência. Céus não são os mesmos depois de Monet. O sertão não é o mesmo depois de Guimarães Rosa. A Bahia não é a mesma depois de Caymmi.  A arte inventa mundos no mundo.

O Mar é um desses mundos inventados pelo olhar do artista. A poética desempenha tal função: introduzir uma beleza adicional ao que a natureza nos oferece em consequência de sua imensa generosidade criadora. O vocábulo “mar”, contido nos dicionários, apenas nos diz o que é protocolado por uma visão erudita, escrito para ser assimilado sem paixão. Se buscarmos por aí, veremos assim: mar – “grande extensão de água salgada” que “ocupa grande parte da superfície da Terra”. Nada mais nada menos. O artista, pelo contrário, não circunscreve as coisas de forma tão lacônica, porque o vocabulário artístico é pleno de ornatos e redondilhas, que nos colocam diante de uma riqueza de detalhes e de perspectivas que denunciam a pobreza sem tamanho dos dicionários. A arte sai em vantagem; sempre nos prepara um passeio mais interessante, porque rastreia, com sua linguagem sedutora, os cantos do insondável.

Por ter inspirado tantos espíritos, de Homero a Clara Nunes, o mar se comporta, na arte, como se comporta na vida: com um horizonte desmedido; sua poética é inesgotável. No entanto, destaco nesse artigo apenas dois excepcionais criadores de um dicionário singular no qual o mar tem uma ressignificação de sua identidade, um pensar elevado sobre seu ser. O mar já não significa algo apenas útil para os profissionais da navegação ou algo que tenha valor apenas a título de demarcação conceitual geográfica. O mar também é gesto poético.

William Turner, o grande pintor inglês do século 19, fez do mar uma poética obsessiva de sua arte. Em quase todo o conjunto de sua obra, o mar figura como protagonista. A influência do francês Claude Lorrain, levou Turner a se destacar entre os pintores de sua época como um exímio paisagista.Herdou de Lorrain o fascínio temático pela paisagem, por esse encontro ingênuo do homem com as forças instintivas da natureza. Nesse encontro, a paisagem deveria ser o centro das preocupações e o homem, ao contrário, posto para o papel coadjuvante, como alguém que deveria ser ofuscado pelo brilho de algo maior que ele em grandeza. O mar, em Turner, é um fluxo intenso de forças. A tela traduz um movimento expansionista, pois não possui o mesmo enquadramento que as pinturas da tradição histórica desde o Renascimento.

Turner tinha uma alma marítima, portanto, revoltada e tormentosa: queria ultrapassar esses limites métricos da tela e, por isso, em suas pinturas não se vê um plano fechado em que as figuras se alinham de maneira plana na organização compositiva. Tudo induz ao tumulto. As cores desaguam convulsivas, misturadas umas nas outras, formando uma paleta multivariada de tons. O mar não é azul ou verde, mas policromático, cheio de nuances e reviravoltas de luzes.

Turner não representa o mar; dentro do possível, ele torna sua pintura o próprio mar. No manejo expressivo e fugaz do pincel, faz do mar o símbolo do espírito trágico da natureza. O que vimos na pintura nunca se aquieta por completo na sua grandeza furiosa, no seu revolver centrífugo. Turner queria traduzir exatamente esse espírito nas magníficas telas“Navio negreiro” (1835),“Fogo no mar” (1835) e “Tempestade de neve” (1842); tais obras são puro movimento e nos convidam a participar do redemoinho de formas que vão se perdendo e se diluindo em uma água gasosa, em que tudo ali presente supõe um evaporar atmosférico.

Outro artista que compôs um vocabulário novo para o mar foi o escritor Joseph Conrad, nascido na Ucrânia, filho de pais russos. Diferentemente de Turner, que tornava a presença humana insignificante no meio da imensidão marítima, Conrad preserva a espécie. O mar, em Conrad, também é tormentoso, mas o homem sobrevive aos seus caprichos. Em meio aos perigos que ele apresenta, a força de resistência humana se mostra como algo comovente, como também ocorre em Melville (“Moby Dick”) e Hemingway (“O velho e o mar”). Apenas alguém como Conrad, que viveu vinte anos trabalhando na marinha mercante francesa, por escolha própria, saberia falar tão bem desse tema. Desde jovem, apartado dos pais (que haviam sido exilados para escaparem da tirania czarista), a pátria de Conrad não era a terra, mas o oceano.

Nas últimas décadas do século 19, Conrad escreveu inúmeras obras em que o mar protagoniza a cena como poética central, mas “Juventude” (1889) teve um efeito mais impactante sobre mim. Esse pequeno livro narra a viagem de marinheiros a bordo do navio Judea. Marlow, acompanhado dos velhos marujos, o capitão John Beard, Mahon e Jeremyn, embarca a trabalho, saindo de Londres “para apanhar uma carga de carvão num porto do Norte e rumar para Bangkok”. Como o navio estava enferrujado, encalhado e sujo, e o percurso era longo, a viagem inevitavelmente estava selada por um alto grau de periculosidade.

Temporal, trovoada, neve, granizo e incêndio atormentam o destino do navio fragilizado até, por fim, capitular. Para não serem arrastados pelo vento, os marinheiros precisam lutar; o trabalho é redobrado; são obrigados a remar, a aprumar o navio, a reconstruir os cacos. E, assim, mais do que chegarem a Bangkok, afirmarem-se como homens de saúde e de coragem. Conrad nos mostra também a vida do marinheiro como sendo a solidão do homem imerso em um mundo abrupto que se prontifica a ameaçá-lo se que o envolve com seu silêncio, trevas e luz.

O mar de Conrad é dominante como o de Turner; seu reino é um mundo de incertezas e dissoluções, de embaraços e desembaraços – nenhuma razão humana, nenhum aparto lógico o controlam. No mar de Conrad, o homem não é um “nada”, como em Turner; ele é pouca coisa; e essa pouca coisa se lança num duelo com os deuses em que não pode vencer nem se vangloriar de seus feitos; ele apenas luta para sobreviver e extrair daí uma lição transformadora: que sua vida não dura mais “do que o mar, do que a terra, do que todos os homens”.

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