Em 2014, quando Patrick Modiano ganhou o Nobel de Literatura, a Academia Sueca justificou sua escolha em função “da arte da memória com a qual ele evocou os destinos humanos mais inapreensíveis e jogou luz sobre a vida durante a ocupação”. Dora Bruder é um exemplo dessa evocação.

A inspiração para este livro foi um anúncio que Modiano encontrou enquanto folheava, no fim dos anos 80, uma edição de dezembro de 1941 do jornal Paris-Soir. No anúncio, os pais de Dora Bruder, jovem de 15 anos, pediam notícias da filha, que estava desaparecida. Movido pela curiosidade, Modiano iniciou uma busca por informações sobre Dora e sua família – uma investigação que, ao todo, durou 8 anos.

“Levei quatro anos para descobrir a data exata de seu nascimento: 25 de fevereiro de 1926. E levei mais dois anos para conhecer o lugar onde nascera: Paris, XII arrondissement. Mas sou paciente. Posso esperar horas sob a chuva.”

Ao buscar registros sobre a família, o autor tenta reconstituir os passos do pai de Dora, Ernesto, nascido na Áustria; e da mãe, Cecília, de origem húngara. Ambos eram judeus e casaram-se em Paris, a cidade que é presença constante na história de Modiano, quase um personagem. Ler Dora Bruder é perder-se pelas ruas e arrondissements parisienses.

Por se tratar da história de uma família de judeus em Paris no período da ocupação nazista na França, o livro tem um tom melancólico. No percorrer de toda a narrativa, Modiano traça paralelos entre sua vida e a de Dora. Fala também sobre outras pessoas que morreram na França em função da guerra e de seus horrores.

O tema do livro desperta a curiosidade – o que terá acontecido com essa família? –, porém a narrativa não prendeu minha atenção. Apesar do empenho de Modiano na busca de informações, o livro contém mais perguntas que respostas, já que, mesmo descobrindo o destino final da família, parece impossível reconstituir inteiramente seus passos até lá. Por conta desta impossibilidade, o autor faz diversas suposições sobre a vida de Dora e seus pais, pessoas fugidias, cujas pistas o tempo todo desaparecem, como é comum com personagens daquele período.

“Não sei se Dora Bruder fez amizades no pensionato, ou se, ao contrário, se isolou. Só posso lidar com suposições, a não ser que conseguisse falar com alguma amiga dessa época. (…)

 Ao escrever este livro, lanço apelos, como sinais de um farol. Tenho dúvidas de que estes conseguirão iluminar a noite. Mas posso esperar.”

O livro é dividido em trechos e capítulos curtos, efêmeras luzes jogadas sobre o que foi possível alcançar da vida dos Bruder.

            Dora Bruder foi lançado no Brasil em 2014 pela editora Rocco, com tradução de Márcia Cavalcanti Ribas Vieira e conta com um posfácio escrito por André de Leones.

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Livro: Dora Bruder
Autor: Patrick Modiano
Páginas: 144
Editora: Rocco
Tradução: Márcia Cavalcanti Ribas Vieira
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Nota: 3 (de 5)
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Resumo: Patrick Modiano busca reconstituir os passos de Dora Bruder e sua família – judeus em Paris no período da ocupação nazista na França. Apesar do tema despertar curiosidade, o resultado é uma narrativa com mais perguntas que respostas e cheia de suposições, em função de seus personagens quase inalcançáveis.

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