Márcia Silveira: Amizade e concorrência na arte moderna

Édouard Manet foi de grande influência para que Edgar Degas começasse a pintar o cotidiano de sua época. Francis Bacon influenciou Lucian Freud a soltar suas pinceladas, antes muito presas ao realismo. Da mesma forma, Jackson Pollock foi fundamental para que Willem de Kooning deixasse um pouco de lado suas pinturas figurativas. Pablo Picasso, seguindo os passos de Henri Matisse, começou a deformar suas pinturas para intensificar a expressividade.

Estas quatro histórias de amizade na arte moderna são contadas no livro A Arte da Rivalidade, escrito pelo crítico de arte Sebastian Smee e publicado no Brasil pela editora Zahar, com tradução de Célia Euvaldo. Porém, como o título do livro deixa transparecer, estas amizades não foram feitas somente de momentos de influência pacífica. Críticas, ciúmes e até agressão física entremearam os relacionamentos destes oito artistas de personalidades fortes e distintas.

Degas era muito bom em desenho e composição, enquanto Manet não era tão habilidoso. Para Degas, quanto mais difícil fosse o trabalho, melhor. Ele precisava da sensação de estar superando obstáculos. Enquanto isso, Manet prezava pela espontaneidade, produzindo uma pintura libertadora, que desvinculava a arte dos temas do passado.

 “Foi o exemplo de Manet, afinal, que persuadiu Degas a se desviar da história e da mitologia para temas contemporâneos, que o fez se apaixonar pela vida da cidade, ver os atrativos, tanto na arte como na vida, da leveza, da improvisação e da brevidade, no lugar de tudo que era pesado, trabalhoso e excessivamente planejado.”

Degas pintou Manet e sua esposa Suzanne. Manet, não se sabe o porquê, num ataque de fúria, cortou a tela. O autor especula sobre o motivo que teria levado Manet a tal ato: a rivalidade entre os dois pintores ou os problemas que Manet estava vivendo em seu casamento. Depois disso, Degas não pintou outro casal por quase quarenta anos.

Lucian Freud também possuía um trabalho mais tradicional que o de seu amigo Francis Bacon. Este, por sua vez, criticava o realismo de Freud, dizendo que ele não era real, pois não captava a dimensão psicológica da pessoa. Freud trabalhava em seus quadros por semanas e até meses, enquanto Bacon trabalhava de forma mais intensa e rápida, uma pintura que chagava a ser, segundo o autor, “violenta”, com o objetivo de trazer movimento e verdade ao quadro. O relacionamento entre os dois artistas era complicado por suas personalidades diferentes (Freud era mais tímido) e envolvia vício em jogo e empréstimos que Freud pedia a Bacon e nunca pagava. Ainda assim, é possível ver a influência de Bacon no trabalho de Freud, que mais tarde assumiu que a maneira de pintar de Bacon o ajudou a ser mais ousado.

Matisse e Picasso se encontraram pela primeira vez em 1906, através dos irmãos Leo e Gertrude Stein, dois dos maiores colecionadores de arte de Paris da época. Matisse, mais velho, já era conhecido e Picasso vivia uma eterna disputa por originalidade. Ele sofria um golpe a cada vez que Matisse surgia com uma pintura inovadora que era apreciada e comprada pelos Stein.

O interesse de Picasso pelas máscaras africanas que tanto inspiraram suas pinturas surgiu por influência de Matisse. Picasso pintou as máscaras africanas no seu famoso quadro Les demoiselles D’Avignon, que não foi bem aceito. Para Matisse, Picasso havia roubado sua ideia e utilizado de forma equivocada, apenas para parecer ousado.

“Qualquer que fosse o motivo, Matisse não viu Les demoiselles como a obra-prima que era. (…) Ele deve ter interpretado alguns aspectos do quadro como uma espécie de homenagem irônica. Mas também suspeitava que o que Les demoiselles estava de fato lhe dizendo era que ele não podia pretender que Picasso fosse nem seu protégé, nem seu seguidor: Picasso era senhor de si mesmo.”

Jackson Pollock queria muito ser artista, mas não possuía habilidade técnica para o desenho. Enquanto isso, De Kooning, que teve formação acadêmica e rigorosa, era extremamente habilidoso. Após muito lutar com sua falta de jeito, Pollock só conseguiu progredir como artista quando passou a incorporar o acaso, não só na forma de pintar, mas nos instrumentos utilizados.

“Pollock ficou famoso, em parte, porque suas pinturas (…) era, sem dúvida, modernas, agressivas, difíceis. No entanto, podiam também ser consideradas bonitas, decorativas e, além disso, transcendentes. Não se pareciam com nada que tivesse surgido antes.”

Sua forma livre de pintar influenciou De Kooning, que começou a explorar formas mais abstratas. Enquanto De Kooning intuía que o sucesso de Pollock poderia ser benéfico também para ele, afinal, estava virando os holofotes para a arte moderna produzida nos EUA, Pollock sentia ciúmes do sucesso do amigo. A personalidade de Pollock, combativa e autodestrutiva, atrapalhou sua vida e seu progresso como pintor, afastando até aqueles que o admiravam, mas não conseguiam tolerar seu comportamento descontrolado e infantil.

O livro de Sebastian Smee traz um bom panorama da arte moderna, numa escrita clara que desperta interesse e curiosidade no leitor. É possível que depois de ler este livro – ou mesmo durante a leitura – você queira pesquisar e saber ainda mais sobre os acontecimentos e personagens da época. Ótima leitura para quem gosta de arte, biografia e um pouco de intriga.

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Livro: A Arte da Rivalidade
Autor: Sebastian Smee
Editora: Zahar
Tradução: Célia Euvaldo
Páginas: 328



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3 COMENTÁRIOS

  1. rsrs… Entendi que foi o corretor, Cesar. Obrigada pelo comentário. O livro fala bastante desse processo de criação e evolução dos artistas. Leia sim, ele é muito bom! Um abraço!

  2. Super babaca! Nosso país infelizmente dá pouco valor à arte porque pouco se importa com o artista, com todo o trabalho, seu processo de criação. Quando você acaba por tentar produzir algo que não é mecânica aí que o artista surge, e então abre-se a ideia de que a arte não é algo fácil, que sua produção passa por diversos processos e muito são pesnosos pra caramba. Adorei a resenha do livro, fiquei com vontade de lê-lo.

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