Márcia Silveira: As Inseparáveis – Simone de Beauvoir e a memória de uma grande amizade

Colunista do DIÁRIO DO RIO opina sobre o livro ''As Inseparáveis, de Simone de Beauvoir

Capa do livro ''As Inseparáveis''

Simone de Beauvoir foi uma das maiores filósofas e escritoras da contemporaneidade. Escreveu diversos romances e volumes autobiográficos, porém, sua obra mais conhecida é O Segundo Sexo, de 1949, onde se encontra a famosa e polêmica frase: ”Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. Uma polêmica sem razão de ser, já que, com esta frase, a filósofa quis apenas dizer que não é a biologia ou qualquer outra situação prévia que determina que alguém é mulher – o papel feminino é moldado pela sociedade.

Este conceito, tão verdadeiro e atual, está presente no romance As Inseparáveis, escrito em 1954 e lançado no Brasil em 2021 pela editora Record, com tradução de Ivone Benedetti. Beauvoir transformou em ficção a sua relação de amizade com Élisabeth Lacoin, conhecida como Zaza. No livro, Zaza se chama Andrée e Simone é Sylvie. As duas se conhecem aos 9 anos de idade, no período da 1ª Guerra Mundial.

Andrée possui uma personalidade divertida e considerada atrevida, o que não é bem-visto por sua família, pertencente à burguesia católica. Sylvie, comportada e tímida, sente-se fascinada pelo jeito um tanto rebelde de Andrée. Da admiração, nasce um amor que Sylvie, com sua pouca idade, não compreende de imediato, mas que fica claro quando a menina volta das férias e não encontra a amiga: ”(…) eu compreendia de súbito, com estupor e alegria, que o vazio de meu coração e o sabor tristonho de meus dias só tinham uma causa: a ausência de Andrée. Viver sem ela já não era viver.”

A amizade entre as duas meninas não era aprovada pelo colégio, em função do comportamento de Andrée. ”As inseparáveis” era o apelido pelo qual as duas passaram a ser chamadas. As professoras, assim como seus pais, esperavam que a jovem renunciasse à própria personalidade para se ajustar às convenções da época. Andrée queria ir para a faculdade para continuar os estudos, mas sua mãe queria que ela se casasse. Uma personalidade singular como a de Andrée era vista como um perigo para a tradição.

Ao mesmo tempo em que sentia vontade de romper com as amarras das convenções, Andrée evitava desagradar a mãe, pois, para ela, era como desobedecer a Deus. Essa contradição entre o seu desejo e o que se esperava dela, transformou-se num peso insuportável na vida de Andrée, prejudicando gravemente a sua saúde: ”(…) pra ter perdão pelo estudo, pelas leituras, por nossa amizade, aplicava-se a cumprir de maneira irrepreensível aquilo que a senhora Gallard chamava de deveres sociais. Por isso tinha dor de cabeça com tanta frequência.”

Zaza, a amiga de Simone de Beauvoir, morreu ainda jovem, prestes a completar 22 anos. Para Simone, a amiga ficou doente por tentar se ajustar a uma personalidade que não era a dela, mas aquela que todos esperavam – o papel feminino socialmente criado. Segundo Sylvie Le Bon de Beauvoir, filha de Simone, que assina o prefácio do livro, ”Zaza morreu porque tentou ser ela mesma e foi convencida de que essa pretensão era um mal. (…) Zaza não conseguiu se encaixar, sua singularidade foi moída. Nisso está o crime, o assassinato.”

As Inseparáveis traz diversas fotos de Simone e Zaza, além de cartas trocadas entre as duas amigas, nas quais fica claro o amor que uma sentia pela outra. Muitos críticos compararam a história de Andrée e Sylvie à de Lila e Lenu, personagens da famosa tetralogia de Elena Ferrante.

  • Livro: As Inseparáveis
  • Autora: Simone de Beauvoir
  • Editora: Record
  • Tradução: Ivone Benedetti
  • Páginas: 128

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