Capa: Os tempos da fotografia

O livro Os Tempos da Fotografia – O Efêmero e o Perpétuo é parte da trilogia na qual o fotógrafo e pesquisador brasileiro Boris Kossoy reflete sobre a natureza da fotografia e sua importância enquanto documento visual. Cada uma das três partes do livro – Teoria e Metodologia; Imprensa e História; Imaginário e Memória – é composta por artigos que foram apresentados por Kossoy em congressos e simpósios dentro e fora do país.

Na primeira parte, o autor fala sobre os teóricos e conceitos que permearam suas pesquisas, desde os anos 70 – quando a produção acerca da história da fotografia no Brasil era escassa – até os dias atuais. Kossoy destaca a importância de uma abordagem multidisciplinar para um estudo mais completo da teoria fotográfica, uma vez que a fotografia pode ser vista como documento e também como arte:

Quanto mais me esforçava para compreender a natureza da imagem fotográfica, suas características próprias, seu estatuto, maior necessidade sentia de buscar conhecimentos em diferentes disciplinas. Percebi que se não fosse objeto de abordagens multidisciplinares, a fotografia jamais poderia ser compreendida em suas múltiplas facetas.”

Um trecho importante deste capítulo trata do uso antropológico da fotografia nas últimas décadas do século XIX, quando fotos de negros e índios eram utilizadas com o falso objetivo de comprovar “cientificamente” suas características físicas, mas cuja real intenção era reforçar o programa colonialista de dominação e controle:

[O que eles pretendiam era] evidenciar através do chamado “testemunho” fotográfico as diferenças físicas que caracterizavam uma pretensa “inferioridade” deste outro perante o homem branco tomado como modelo, como padrão de perfeição física. Em outras palavras, as diferenças entre negros, índios, mestiços em estado primitivo, selvagens habitantes das terras exóticas, e o branco europeu civilizador.”

No capítulo Imprensa e História, Boris Kossoy destaca o trabalho de Hildegard Rosenthal, uma das pioneiras da fotorreportagem no Brasil. Escapando da perseguição nazista (seu futuro marido, Walter Rosenthal, era judeu), Hildegard desembarcou no Brasil em 1937, ano em que chegaram aopaís cerca de 4.700 alemães. Os registros que Hildegard fez da cidade de São Paulo nos anos 40 representam um importante legado iconográfico para o país.

Ainda neste capítulo, o autor discute a questão de a imagem poder ser utilizada pela mídia como “instrumento de manipulação política e ideológica”, por ser considerada (erroneamente) uma cópia fiel da realidade:

A imagem – mesmo a que é realizada como testemunho jornalístico – é inevitavelmente fruto de um processo de criação. As imagens são concebidas e materializadas conforme as intenções de seus autores, segundo um filtro cultural e uma determinada visão de mundo.

A última parte do livro é dedicada à investigação da fotografia como memória. Kossoy divide os tempos da fotografia em dois momentos: o tempo da criação – momento efêmero em que o fotógrafo, com um clique, paralisa o instante; e o tempo da representação, aquele em que o fato fotografado fica em suspensão e a foto, quando conservada, é uma “memória sempre disponível”:

Com a invenção da fotografia, inventou-se também, de certa forma, a máquina do tempo. (…) Refiro-me à máquina do tempo enquanto máquina fotográfica e, especialmente, ao produto desses aparelhos: as imagens. Com elas, viajamos no tempo, em direção aos cenários e situações que nelas vemos representados; através de nossas lembranças, de nossa imaginação, viajamos ao passado e vivemos por instantes essa ilusão documental.

O livro Os Tempos da Fotografia está na sua terceira edição, lançada em 2014 pelo Ateliê Editorial. Ele é um importante registro das pesquisas de Boris Kossoy e uma rica fonte de estudo para quem se interessa pela teoria fotográfica. Os outros dois livros que compõem a trilogia são: Fotografia & História e Realidades e Ficções na Trama Fotográfica, lançados pela mesma editora.

Livro: Os Tempos da Fotografia – O Efêmero e o Perpétuo
Autor: Boris Kossoy
Editora: Ateliê Editorial
Páginas: 176



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