Foi por acaso que o jornalista norte-americano Calvin Tomkins descobriu que era vizinho de Gerald e Sara Murphy. E demorou algum tempo até que ele descobrisse que aquele casal simpático de velhinhos seria o tema do trabalho que impulsionaria sua vida profissional. É o que o autor conta no prefácio do livro Viver bem é a melhor vingança, lançado no Brasil em 2018 pela editora Autêntica, com tradução de Beatriz Horta. 



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Calvin descobriu que Gerald e Sara haviam morado em Paris nos anos 20, mesma época em que muitos artistas haviam se instalado na cidade. Com o passar do tempo, percebeu que eles eram o casal que havia servido de inspiração para os personagens principais do livro Suave é a Noite, de F. Scott Fitzgerald, publicado em 1934. Curioso, começou a fazer mais perguntas sobre aquele período.

Em Viver bem é a melhor vingança, Calvin Tomkins conta a história de Gerald e Sara nestes anos em que viveram entre duas casas, uma em Paris e outra na Riviera francesa, lugares onde recebiam amigos como Picasso, Hemingway e o casal Fitzgerald, entre outros artistas que viviam em Paris naquela época. 

“‘Todo dia era diferente’, contou Murphy. ‘Existia uma tensão e uma animação no ar que eram quase palpáveis. Havia sempre uma nova exposição, ou um recital de novas músicas de Les Six, ou uma manifestação dadaísta, ou um baile à fantasia em Montparnasse, ou a estreia de uma nova peça ou um balé, ou uma das fantásticas Soirées de Paris, promovidas por Étienne de Beaumont em Montmartre – e a cada vez que você fosse a um desses eventos, encontraria todo mundo lá também.”

O casal ficou muito próximo de Zelda e Scott Fitzgerald, casal que é famoso não só por sua obra, mas também por sua extravagância. Embora a relação entre os dois casais fosse conturbada em alguns momentos – em função dos excessos de Scott –, os Murphys tinham muito carinho pelo casal Fitzgerald.

“Dez anos mais velhos que os Fitzgeralds, eles assistiam às extravagantes estripulias de Scott e Zelda com um misto de tolerância bem-humorada e sincera preocupação, enquanto os Fitzgeralds, de seu lado, faziam tudo o que podiam para chocar os Murphy. Scott não suportava passar despercebido. Se sentisse que Sara não estava dando atenção suficiente a ele, fazia algo para provocá-la.” 

De tão envolvidos com os artistas, Gerald também se tornou um, ainda que por pouco tempo. Na nova edição do livro, o autor acrescentou informações sobre a curta carreira de Gerald Murphy na arte. Os quadros pintados por ele na década de 1920 foram redescobertos em 1960 e expostos no Museu de Arte Contemporânea de Dallas.

O perfil dos Murphys escrito por Tomkins foi publicado pela primeira vez em 1962, na revista New Yorker. O livro foi publicado em 1974. Como diz o jornalista Sérgio Augusto na apresentação do livro, “Tomkins escreveu a mais enxuta e gratificante crônica sobre a Paris da geração perdida e seu mais glamoroso casal de expatriados”. A obra é uma homenagem a esse casal bon vivant que, acima de tudo, apreciava a vida – que, apesar de glamorosa, teve também momentos de tragédia, que são contados no livro. Uma história que traz para o leitor o clima da Paris dos anos 20, tempo e lugar em que a arte dava o tom da vida.

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