A dor de perder um filho não passa, mesmo depois de tantos anos. A noite do dia 31 de março de 2005 mudou completamente a vida de 29 famílias da Baixada Fluminense. Policiais insatisfeitos com a troca de comando do 15º BPM de Duque de Caxias, percorreram 15 quilômetros de ruas das cidades de Queimados e Nova Iguaçu atirando à esmo, resultando no assassinato de 29 pessoas.



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O episódio ficou conhecido mundialmente como Chacina da Baixada e anualmente o movimento de mães e familiares vítimas da violência do Estado na Baixada Fluminense realiza uma caminhada por todo percurso da chacina em memória das vítimas, o que não acontecerá pela primeira vez nestes 15 anos, devido a pandemia do Covid-19. Impedidas de realizarem a caminhada e respeitando as recomendações dos órgãos de saúde, foram para as redes sociais através do Fórum Grita Baixada que posta há uma semana na sua página cards, imagens e textos sobre o ocorrido e lançou um vídeo de três minutos com o depoimento de quatro mães que transformaram o luto em luta e continuam lutando por mais segurança na região.

O vídeo foi gravado antes das determinações oficiais de isolamento social instituídas pelo Ministério da Saúde.

Entre as 29 vítimas, havia crianças, estudantes, comerciantes, pessoas desempregadas, funcionários públicos, marceneiros, pintores e garçons. As 29 vítimas não tinham antecedentes criminais e foram escolhidas aleatoriamente enquanto conversavam na porta de casa ou andavam pelas ruas.

Luciene Silva, de 54 anos perdeu o filho Rafael, que tinha 17 anos no dia da Chacina da Baixada. Junto com outras 19 mães, ela integra a Rede de Mães Vítimas da Violência de Estado na Baixada Fluminense. Luciene disse ter tristeza de ver que esse tipo de violência continua existindo. “Infelizmente essa violência só cresceu de 2005 para cá. A Rede une essas mães para dar voz a essa dor de tanta saudade, de tanta revolta, de indignação, da perda enorme das mães e dos familiares. É um símbolo o 31 de março para a gente”, contou.

Para Luciene que é mãe de outros três filhos, é importante continuar com conscientização dos impactos da violência de Estado na região, para que a Chacina da Baixada não seja esquecida, mas também porque existem novas vítimas. “Depois da chacina me dei conta da realidade que estava ocorrendo a minha volta. É difícil você perceber quando a violência não chega a sua casa, na sua família, mas quando chega a gente leva um choque e é um impacto muito grande. A gente abre os olhos para o mundo”, apontou, lembrando, que quando perdeu o filho, foi acolhida por um grupo de mães na mesma condição que eram de comunidades do Rio.

Uma coisa é você ter consolo de uma pessoa da sua família ou de um amigo. Outra coisa é você ser consolada e abraçada por uma mãe que também perdeu o filho. Ela é sua companheira de dor. Ela entende a dor que você está sentindo”, contou, destacando, que as vítimas eram da mesma faixa etária do Rafael.

Segundo Luciene, as mães ficaram frustradas de não poderem fazer a Caminhada pela Vida, mas reconheceu que diante da gravidade da situação causada pelo novo coronavírus, não havia condição de fazer a manifestação. “A gente tem que ser responsável quanto a isso. Como a gente preserva a vida fazendo uma homenagem a quem se foi, mas defendendo a vida, a gente não pode cometer algo que seja contrário a isso, pondo as pessoas em risco, fazendo o contrário do que deve ser feito contra essa pandemia que a gente está vivendo”, completou.

Ontem (30/03), véspera em que se completa 15 anos da Chacina da Baixada Fluminense, a Quiprocó Filmes disponibilizou em seu canal do youtube o acesso ao documentário Nossos Mortos Têm Voz. O filme poderá ser acessado livremente ao longo desse dia 31 de março.

Pra quem não viu o filme, taí uma excelente oportunidade. Quem assistiu pode aproveitar e indicar pra alguém. É um filme fundamental pra o Rio de Janeiro, principalmente pra Baixada que tem em seu histórico a maior chacina do Estado do Rio de Janeiro.

Link do filme.

Com colaboração da Agência Brasil

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