Sérgio Cabral

A Revista Piauí é uma das melhores revistas em circulação e este mês parece ser especialmente dedicada ao Rio de Janeiro. A matéria de capa, por exemplo, trata do governador Sergio Cabral (PDMB), em especial da sua incrível perda de popularidade nos últimos meses.

Veja alguns dos melhores trechos. Para ler a matéria completa só comprando nas bancas.

Sobre sua queda de popularidade

Se um carioca recém-chegado de vinte anos no Ártico entrasse no auditório (a matéria comenta sobre os auto elogios de Cabral em uma palestra), jamais imaginaria ser Cabral o mandatário mais hostilizado e pior avaliado do país. Desde os protestos de junho, a aprovação a seu governo desabou de 45% para parcos 12%, segundo medição do Ibope. É um percentual inalcançado em décadas. O recorde ainda é de Fernando Collor de Mello, que tinha 9% de aprovação quando sofreu o impeachment. Contra Cabral, houve passeatas, depredação, tentativa de invasão de prédios públicos, saques de lojas, carros incendiados, ataques à polícia e um vagalhão de apupos que chegou até a avenida Paulista. Por quase cinquenta dias, manifestantes acamparam ao lado de seu apartamento no Leblon para pressionar por uma renúncia. Vizinhos se agitaram, exigindo sua mudança do bairro. Correligionários de longa data evitaram defendê-lo em público, caso do prefeito do Rio, Eduardo Paes. Em solenidades, Cabral passou a ser vaiado com entusiasmo pela multidão. Reeleito há menos de três anos em primeiro turno com 66% dos votos, a grande estrela do PMDB se viu impedido de sair às ruas. Parecia um calcinado corpo celeste caindo num buraco negro.

Sobre ser xingado no Rock in Rio

Mencionei que, na antevéspera, um coro de 85 mil pessoas o havia xingado por um longuíssimo minuto durante uma apresentação no Rock in Rio. Mais uma vez, ele contemporizou. “Ah, isso foi incitado por um cantor, um cara que faz campanha contra mim desde 1997”, disse, referindo-se a Tico Santa Cruz, vocalista da banda Detonautas, que puxou a multidão. “Isso é o Rio de Janeiro. Depende do lugar, do perfil das pessoas. Em 2010, eu me reelegi com faixas de ‘Fora Cabral’. O Rio não é trivial.”

O carro avançava pelo bairro do Flamengo e ele prosseguiu a análise sem solavancos. Em suas pesquisas, disse, jamais atingiu o percentual de impopularidade que lhe foi atribuído. “Nunca tive só 12% de aprovação. Variou entre 15, 18, 20. E esse número é velho também, já melhorou”, afirmou, escorrendo novamente a mão pela gravata. Na sua avaliação, o que parecia uma crise sem solução era fruto da exploração de um “imaginário popular” alimentado por adversários que “jogavam abaixo da linha da cintura”.

Sobre as manifestações

Havia os que chamou de “profissas de manifestação”, os sindicatos, os partidos políticos – como o Partido Socialismo e Liberdade e o Partido da República –, seus representantes, os black blocs, de quem não se conhecia exatamente a agenda, e os “formadores de opinião”. “É o pessoal que em 2006 fez campanha para a Denise Frossard, em 2008 e 2010 fez para o Fernando Gabeira, em 2012 estava com o Marcelo Freixo”, comentou. Parecia muita gente, disse, mas eram vozes isoladas. Para ele, a oposição soube reverberar com força a onda negativa produzida contra o governo, “mas é uma coisa que está decantando, que as pessoas estão discernindo a ironia por trás dela, vendo que são ataques que não ficam de pé”.

Sobre os vários problemas enfrentados por Cabral

Cesar Maia enumerou o recheio do “imaginário popular”, citado por Cabral. “Vamos lá”, começou, “gastos exorbitantes na festinha de sorteio da Copa do Mundo, construção de estádios, a boa vida, viagens para o exterior, ligações promíscuas com Eike, Cavendish, guardanapo, helicóptero, marquetagem, relação péssima com os servidores públicos, catástrofe na serra fluminense e ele sempre viajando, Amarildo, vídeo chamando menino de otário, escritório de advocacia da mulher.” Recuperou o fôlego e perguntou: “É bastante, não?”

Segundo ele, os protestos de junho afetaram a imagem de todos os políticos, mas a situação de Cabral era de outra ordem. “A passagem de ônibus foi um tipping point. Com ele, o que houve foi um processo cumulativo, foi a desfaçatez de anos, que estava represada, que veio à tona”, comentou. Para o ex-prefeito, Cabral virou o retrato acabado da ignomínia da política nacional. “Quando a população se vê à deriva, você tem que escolher sua Geni de estimação, um fato ou personagem para aglutinar e canalizar a revolta das pessoas. Ele foi fácil. Quem colecionou tanta impropriedade assim?”, perguntou.

Sobre sua forma de fazer campanha

Bom de palanque e de rua, criou uma série de frases para todos os gostos: “Meus filhos e minha família têm acesso à saúde e à educação e a maioria não tem. Isso é muito injusto”, falava com indignação à gente pobre. “A economia só se desenvolve se soltar a criatividade do empresário”, defendia junto a proprietários. “Sou a síntese social do Rio”, dizia a todos. Quando precisava, mencionava ter saído do subúrbio apenas aos 7 anos. Se outra situação pedia, lembrava que sua casa sempre foi frequentada por artistas e intelectuais. Em um terceiro cenário, podia se valer do parentesco torto com a aristocrática família Neves. Entre os pares na política, ele é tido como ambicioso, organizado, jeitoso e com afiada percepção de oportunidades. É considerado o mestre das evasivas. Um deputado estadual da base governista me contou que, quando o governador Cabral fala “Que maravilha, vamos nessa!”, quer dizer exatamente o contrário.

Sobre a casa de Mangaratiba

É quando se toma conhecimento de uma novidade: Cabral havia ficado rico. Apesar de viver com o salário de deputado estadual, Cabral, segundo Marcello Alencar, tinha um patrimônio incompatível com sua renda. Pela primeira vez, soube-se da casa no condomínio Portobello, em Mangaratiba, um assunto sobre o qual o governador ainda hoje tergiversa. A propriedade, avaliada por corretores em 5 milhões de reais, tem as estruturas interna e externa feitas com divisórias drywall, toda importada dos Estados Unidos. À época, ele informou dar consultoria política a um publicitário, o que justificava seus rendimentos.

Há dois anos, a revista Época mostrou que, para quitar a casa, Cabral fizera empréstimos junto a seu chefe de gabinete, ao subchefe e a um assessor, que ganhavam um décimo do valor que disponibilizaram ao patrão. Também aparecia dinheiro do sogro e de Suzana Neves na negociação do imóvel. Em sua declaração de bens entregue ao Tribunal Superior Eleitoral, ele alegou que o valor da casa era de 200 mil reais.

Sobre o acordo com Garotinho na campanha para governador

Uma história me foi contada por três interlocutores distintos. Rosinha havia decidido se desincompatibilizar do governo para se candidatar ao Senado e garantir um cargo público. Com sua saída, assumiria o vice-governador e ex-prefeito, Luiz Paulo Conde. Às vésperas da saída, Cabral e Regis Fichtner – hoje chefe da Casa Civil do governo – apareceram na residência oficial durante a noite. Queriam convencer o casal para que Rosinha terminasse o mandato. De acordo com os relatos, Cabral disse que, se Conde assumisse, ele o trairia e acabaria com o projeto dos Garotinho – e dele próprio – de fazê-lo governador do Rio. Depois de uma longa conversa e a garantia de que continuariam parceiros no governo futuro, o casal topou a proposta. Rosinha ficou, Conde não assumiu, e Cabral foi eleito governador do Rio com mais de 5 milhões de votos.

No dia seguinte à eleição, Cabral não atendeu aos telefonemas de Garotinho. E não os atendeu nunca mais. A amigos, Sérgio Cabral nunca escondera seu desprezo pelo ex-governador. Eleito, livrou-se dele. De sua parte, Pezão também se afastou. Um ministro de Dilma Rousseff me relatou uma reunião do partido, na qual Rosinha chamava Pezão de “traidor” na frente de todos, ao que ele permaneceu calado. O casal Garotinho, que contava com secretarias e autarquias, como a Cedae, só fez nomeações no Departamento Estadual de Trânsito.

Sobre a briga Garotinho e Cabral

Durante o mandato de Cabral, o Tribunal Regional Eleitoral deixou os Garotinho inelegíveis e cassou o mandato de Rosinha como prefeita de Campos dos Goytacazes. A Justiça prendeu o chefe da polícia do governo de ambos, o deputado Álvaro Lins. Ele e Garotinho foram acusados de lotear cargos nas delegacias do Rio e condenados por formação de quadrilha. Dez entre dez observadores fluminenses enxergaram as digitais de Cabral nos processos contra o casal. O ódio entre eles é do tipo visto apenas em filmes preto e branco estrelados pela atriz Joan Crawford.

Sobre os gastos com propaganda

Entre janeiro de 2007 e setembro de 2013, o governo Cabral gastou 715 milhões de reais na rubrica “Serviços de comunicação e divulgação”, de acordo com dados do Sistema de Administração Financeira para Estados e Municípios. “Isso é só o que foi gasto para divulgar o que ele fez no governo. É uma média de 100 milhões por ano, o equivalente ao orçamento anual inteiro de um município de pequeno porte”, disse o deputado tucano Luiz Paulo da Rocha.

Sobre o acidente de helicóptero

Em junho de 2011, Sérgio Cabral, familiares e amigos tomaram emprestado o avião particular do empresário Eike Batista para ir à festa de aniversário do empreiteiro Fernando Cavendish, que tinha contratos de mais de 1 bilhão de reais com o governo, parte deles sem licitação. O governador vivia um momento de euforia, sobretudo na vida pessoal. A turma desembarcou do jato de Eike em Porto Seguro, na Bahia, e pegaria um helicóptero até Trancoso, um voo de dez minutos. Como havia muitos convidados, os homens deram prioridade às mulheres e crianças. A aeronave caiu no mar cinco minutos depois da decolagem. No acidente, sete pessoas morreram. Entre elas, a namorada do filho do governador; a cunhada, Fernanda Kfuri, e a mulher de Cavendish, Jordana; e o filho dela, o menino Lucas Kfuri de Magalhães Lins, neto do executivo José Luiz de Magalhães Lins, figura destacada da elite brasileira, articulador político e responsável pela consolidação do Banco Nacional, que, com sua saída, foi à bancarrota.

A criança era o alento do patriarca, que lidava com outra tragédia particular. O pai do menino – seu filho predileto, José Luca – sofria de um grave câncer. A notícia da morte da criança devastou os parentes. Logo depois do acidente, os Magalhães Lins chamaram o advogado carioca Nelio Machado para uma reunião na casa da família no bairro do Humaitá. Parte deles queria responsabilizar criminalmente Sérgio Cabral e Fernando Cavendish pela tragédia. Naquela mesma noite, desistiram da ideia. Destruído pela perda do filho único, José Luca chegou a interromper o tratamento de quimioterapia. Um ano e meio depois, ele sucumbiu à doença.

“O acidente desnudou o que sempre foi a principal característica do governo dele: a relação promíscua entre o público e o privado”, comentou o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, em uma tarde recente. “O Cabral é um psicopata, que não tem sentimento de culpa por nenhuma das coisas bizarras e absurdas em que ele se envolve. Ele se comporta como se não fosse nada com ele.” Logo em seguida, Cabral e Adriana Ancelmo homologaram o divórcio, que durou quarenta dias. No outro ano, o casal renovou os votos numa cerimônia no Palácio Laranjeiras, cujos padrinhos postiços foram Lula e Dilma, que estavam na cidade para uma solenidade pública.

Sobre a festa em Paris

Quase um ano depois, em abril de 2012, o deputado federal e ex-governador Anthony Garotinho publicou em seu blog uma série de fotos, tiradas em Paris, quando Sérgio Cabral, acompanhado de uma comitiva de 150 pessoas, desembarcou na capital para receber a Legião de Honra pelo Senado francês. Nas fotos, Fernando Cavendish aparece abraçado a secretários de estado com guardanapos amarrados na cabeça. Em outra série, Cabral e a turma dançam funk ou algo do gênero agachados em frente a um cantor. Noutra, Cavendish, o empresário George Sadala, concessionário do Poupatempo no Rio e em Minas, mais os secretários de Saúde e de Transportes (Sérgio Cortes e Wilson Carlos) estão no restaurante do hotel Ritz de Paris. Há também a cena das respectivas mulheres exibindo a sola de sapatos da grife Christian Louboutin.

Depois de quase um mês em silêncio, Cabral respondeu não manter relações escusas com o empreiteiro, seu amigo de longa data.

Sobre o uso de helicópteros

Quando as manifestações tomaram corpo nas ruas, Cabral passou a rever medidas impopulares, como a demolição de um parque aquático e uma escola, que desapareceriam com as obras da Copa e da Olimpíada. Devolveu dinheiro de diárias de viagens privadas e derrubou uma resolução que proibia bailes funk nas favelas pacificadas. Também sancionou uma lei que vetava mascarados em protestos de rua. No meio da confusão, uma reportagem da Veja mostrou que helicópteros do governo eram usados para levar o governador, sua mulher, seus filhos, babás e até o cachorro da família, o Juquinha, para Mangaratiba. Cabral respondeu às críticas dizendo não estar “fazendo nenhuma estripulia”. Dias depois, pela segunda ocasião, valeu-se de um código de ética. Dessa vez, decidiu disciplinar o uso de aeronaves no serviço público.

Sobre o escritório da 1ª Dama

Nos jardins do palácio, Cabral continuava a caminhada peripatética. Falou-se sobre o sucesso do escritório de advocacia de sua mulher. “Olha que interessante, eu estava refletindo outro dia: normalmente os políticos são agredidos por botar a mulher na assistência social. Há vinte anos, minha mulher tem esse escritório que…” “Cresceu horrores no seu governo”, completei. Com um tom de voz sério, ele retrucou que jamais pediu favores em nome dela: “Nunca me meti nos assuntos do trabalho dela e não vai ser agora. É até covardia contra o mérito dela e dos sócios.”

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