Confesso que estou com medo. Não um medo ao modo da famosa fala de Regina Duarte, que era medo plantado por uma situação irreal. E sim um medo das pessoas. Daquelas que a gente vê pela rua, no dia a dia.

Esse medo é consubstanciado diuturnamente, quando abro minhas redes sociais e vejo as discussões que invariavelmente lidam com as atuais campanhas políticas. Nos comentários, sempre surge algum discurso assustador de ódio. Por exemplo, saltou na minha tela um compartilhamento de notícia falsa sobre uma candidata de esquerda e, logo embaixo, o comentário de uma senhorinha dizendo que “essa aí merecia um tiro na cara”. Em seguida, surgiu uma publicação de matéria sobre o atentado sofrido pelo líder nas pesquisas, e um jovem rapaz com foto bonitinha, meiga, replica: “facada foi pouco, merecia ter levado um tiro”.

A crise política a que chegamos está abrindo o esgoto moral da sociedade e revelando os pequenos monstros que estavam latentes por debaixo da pele de pessoas comuns. Pessoas como nós. Pessoas que passeiam com seus cachorros de manhã cedo. Pessoas que pegam transporte público. Pessoas que você encontra nos churrascos e eventos de família, dão tapinha nas costas e dizem que vão “marcar algo um dia desses”. Como é que essas pessoas, outrora tão pacíficas e ordeiras, se transformaram em replicadoras de notícias falsas sem o mínimo cabimento? São maritacas do ódio, xingando e destilando juras de agressão em comentários públicos nas redes sociais.



Vivemos uma era de despolitização. A grande maioria não sabe mais no que deve crer. Odeiam por esporte. Justifica-se: lideranças de todo o espectro se venderam de forma vergonhosa aos inúmeros esquemas de corrupção típicos da velha política (não é só o PT, caro leitor, mas o PT também está incluso). Numa era de rápida comunicação, essas notícias acabam sendo propagadas, seja de forma honesta, seja de forma desonesta (alteradas, aumentadas ou falsificadas), gerando o desânimo e a revolta na mente das pessoas.

O que, contudo, não justifica a avalanche de mensagens raivosas e inconsequentes que tomou de assalto as redes sociais. Repentinamente, qualquer pessoa se acha no direito de decretar sentença de vida ou morte a quem não é de sua predileção. Brigas emergem entre pessoas comuns, que até meses atrás compartilhavam gifs reluzentes dizendo “bom dia”. Famílias se rompem por conta de discussões sobre política, e ai de quem tentar puxar uma reconciliação!

Independentemente do resultado das próximas eleições, fico me perguntando como conseguiremos recolher os cacos da desfragmentação societária que chegou até o nível das famílias. Vamos aprender a conviver em paz e respeitar a opinião alheia?

E, principalmente, será possível conter o discurso de ódio que já tomou conta das pessoas do nosso cotidiano? Ou passaremos à próxima etapa: concretizar as ofensas virtuais em danos físicos reais? Sou do tempo em que a gente torcia para que político ruim fosse preso e condenado, pois, afinal de contas, as leis são o parâmetro acordado pela sociedade para julgar quem comete injustiças e crimes. Mas, a julgar pelo senso comum do pessoal que ladra palavras de violência pelas redes, parece que esse tempo já passou…

Eu poderia insistir que há, sim, boas opções nas corridas para os diversos cargos – muitas delas novas na política, com passado ilibado e grandes apostas de renovação… Mas, fazer o quê? Se sugiro candidato(a) de esquerda, recebo “odeio esse cara porque odeio o comunismo” (será que sabem o que realmente é comunismo?). Se retruco, sugerindo então candidato(a) mais à direita, acabo ouvindo “odeio também, é do partido de fulano, é tudo da mesma quadrilha”. Odiar virou palavra de ordem.

Estou aceitando sugestões de bunker para aluguel, caso a coisa fique ainda pior. Será que encontro no AirBnb?

Luiz Coelho é planejador urbano, sacerdote anglicano e artista visual. Tem formação em Engenharia Cartográfica (IME), mestrado em Informática (UFAM) e é doutorando em Planejamento Urbano e Regional (UFRJ). Também é formado em Teologia pelo SETEK, com doutorado em liturgia por Sewanee: the University of the South. É servidor público municipal, atualmente lotado no Instituto Pereira Passos e serve a Paróquia Anglicana São Lucas, em Copacabana. É membro filiado ao PSOL.

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