Memórias da favela de Manguinhos são contadas em poesia de cordel

“O Boteco da Lauzinha já é grande tradição e há mais de 20 anos na favela é atração.” Quem conhece se encanta, guarda o bar no coração! – os versos de cordel falam sobre um importante ponto de encontro e confraternização da Manguinhos; Tia Lauzinha, é a afamada dona de um tradicional boteco que reúne semanalmente boa parte das figuras importantes do circuito cultural local, como os integrantes dos grupos de festas juninas e da velha guarda da escola de samba local.

A região de Manguinhos é chamada popularmente de “Faixa de Gaza” e fica na Zona Norte do Rio de Janeiro, perto de Benfica e Bonsucesso. Muitas pessoas evitam o local, alegando medo da violência, apesar da área se localizar ao lado do campus da Fundação Oswaldo Cruz. Para fugir desse estigma, e trazer à tona boas histórias sobre o local, foi pensado o Projeto Memória de Manguinhos em Cordel.



Valorizar o território por meio do registro e da divulgação sobre os atores culturais locais, é o objetivo do fotógrafo e agitador cultural Leo Salo. Com edição do Coletivo Experimentalismo Brabo e com o apoio do Museu da vida e da Awesome Foundation, Leo já lançou ao todo 8 títulos, todos falando falando sobre atores sociais e culturais de Manguinhos.

Dona Celeste “começou a fazer arte antes de adolescente. Criativa desde cedo, querida por toda a gente… Ela é Celeste Estrela: poetisa competente”. A atriz, cantora e poetisa, já até apareceu em novelas da Rede Globo de Televisão. Já Norma Maria, é psicopedagoga e ativista na luta pelos direitos da pessoa com deficiência. Ela criou na favela, um projeto que dá apoio para as famílias com pessoas portadoras de deficiência: “falando com toda a gente, Norma acabou achando outras mães, familiares, foi se identificando… Gente com mesmo problema: uma rede foi criando.”

As publicações são distribuídas em escolas e outros espaços da região, em atividades que contam com a presença das homenageadas. As memórias de remoções, enchentes e violência estão sempre presentes nas narrativas locais. No entanto, estes folhetos de cordel trazem narrativas de força, resistência, trabalho, arte e cultura, destacando também a forte atuação de mulheres negras, como Celeste, Norma e Lauzinha dentro do Complexo de Favelas de Manguinhos.

Além dessas mulheres guerreiras, os folhetos também trazem histórias do ator e diretor de teatro Geraldo de Andrade, e do dançarino Iguinho Imperador, importante referência na arte do passinho. Há ainda um cordel sobre as manifestações culturais do território e outro sobre os sonhos das crianças do território. Este último, em parceria com a Oficina Portinari e com a organização de Ubirajara Rodrigues e Melissa Coelho.

Para Felipe Eugênio, Pesquisador de artes, território e saúde da cooperação social da Fiocruz, os folhetos têm duas perspectivas de análise quanto à sua importância para o território:

Há duas dimensões para se avaliar a importância de um folheto de cordel sobre essas pessoas. Em primeiro, pela valorização dos saberes que eles trazem consigo e que, na trajetória que cumpriram no território, acabam por serem, em muitas das vezes, um tipo de conhecimento que se confunde com a história comunitária. E não falo aqui apenas dos eventos que constituíram um território, do qual eles tenham sido testemunha ou sujeitos. Digo que também as tecnologias, as soluções, os modos de operar, dessas figuras mais velhas e ainda icônicas, isso é um tipo de conhecimento valioso porque sofisticado. Opera no que poderíamos chamar uma história das metodologias e técnicas e aprendizados populares para sobrevivência na favela.

A outra dimensão que deve ser valorizada é sobre o veículo cordel. Que opera com uma gramática da arte, da poética dos versos, não abrindo mão do humor, para contar sobre a trajetória dessas figuras icônicas – e griots – desses territórios. O cordel ilumina no lugar de apenas instruir. Ilumina porque joga – literalmente joga – com a inteligência do leitor, fazendo inferências, criando referências externas ao homenageado, e criando um certo baile de palavras bem assentadas. Ler cordel, claro, se um cordel bem feito, é se divertir e, sem querer, adquirir conhecimento.

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