Papo de Talarico: Viagem carioca no Largo do Millôr

"A História é uma Istória", já dizia Millôr Fernandes. E a crônica também. E quando o carioca vira texto?

Foto de A História é uma Istória de Millôr
"A História é uma Istória" provoca risos e reflexões (foto: Alvaro Tallarico)

Millôr Fernandes (1923-2012) tem um monumento em sua homenagem num dos lugares mais especiais do Rio de Janeiro: o Arpoador. Ele foi cartunista, escritor, tradutor e um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX. Aquele ponto mágico é chamado por muitos de Largo do Millôr. Agora, um de seus clássicos textos ganha uma atualização após um download de Ernesto Piccolo. O espetáculo “A História É Uma Istória” está de volta em nova montagem. Estive na estreia, dia 5 de maio de 2022, no Teatro II do Sesc Tijuca (Rua Barão de Mesquita, 539).

Cheguei ao Sesc em cima da hora, como bom carioca. O ar de outono era agradável, nem frio, nem quente. Entrei antes do público e sentei na primeira fileira do alto com máquina fotográfica em uma mão e bloco de notas na outra. Em seu texto, Millôr ironiza a história da humanidade desde a invenção da roda até o famigerado TikTok. Ele foi jornalista de verdade, daqueles que não tem medo de escrever o que pensam e que, acima de tudo, pensam. Era um apaixonado pelo Rio de Janeiro, um sarcástico contumaz.

Palmas

A peça? Foi ótima, com um show impressionante de expressividade corporal do trio de atores, Bruno Ahmed, Bruno Suzano e Paula Barros. Ernesto Piccolo segue um bom diretor.

Entretando, ao sair do espetáculo, caminhando pelas nobres ruas tijucanas lembrei do Arpoador. Em minha mente vieram os vários sóis que vi descendo, iluminando o mar de Ipanema. Os surfistas em suas pranchas, poeticamente flutuantes. Aquela bagunça carioca de vendedores ambulantes, policiais, turistas e locais. Momentos românticos ali vividos.

Numa das últimas vezes que passei por lá, subi a pedra e, ao meu lado, um grupo fazia música. A trilha sonora pinçava meus braços, cujos pêlos arrepiavam-se em gratidão. O público bateu palmas. De tão feliz, achei que fosse para mim, levantei e agradeci. Alguns riram. Realmente, era uma piada. Ironia. Aprendi alguma coisa com o Millôr.

Assim como ele, sou carioca. Sim, já fui muito ao Maracanã na minha adolescência, vi jogos inesquecíveis, mas hoje não me interesso muito. Frequentei em muitas segundas o Samba do Trabalhador, no Andaraí, no histórico Renascença Clube. Joguei futebol no Aterro do Flamengo e altinha em Ipanema. Aliás, nessa última era mais fanfarrão e nunca mantive a frequência. Vi shows místicos no Circo Voador, como Moraes Moreira, Ney Matogrosso e O Rappa. Além disso, Billy Paul e Gabriel, O Pensador, no Parque Madureira. No Mercadão, comprei açafrão. E vela para o meu anjo da guarda. Conheci gringos na Pedra do Sal e quase morri de exaustão em alguns Rock in Rio. Pulei muro da escola em São Cristóvão para beijar na boca na Quinta da Boa Vista. Peguei o trem do samba até Oswaldo Cruz. Brinquei de Polícia e Ladrão em Del Castilho e namorei uma mulher de Honório Gurgel (não, não era a Anitta).

Virei cronista, virei texto, ser carioca é um simples pretexto, para ser feliz.

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