Mudança da família real foi "projeto meticuloso"

Da série de artigos, reportagens e entrevistas que a Folha de São Paulo fez em 26 de novembro de 2007 sobre os 200 anos da vinda da Família Real de Portugal para o Brasil. Acompanhe o índice aqui.

Originalmente publicado aqui.

Mudança da família real foi "projeto meticuloso"

Para historiadores portugueses, dom João 6º foi sábio e prudente ao decidir partir para o Rio

DO ENVIADO A PORTUGAL

A decisão de transferir a corte para o Brasil não só foi "prudente e acertada" como resultado de um projeto meticuloso e trabalhoso que não pode ter sido decidido às pressas, no calor dos acontecimentos dos dias que antecederam a partida.
Tudo isso se soma para provar que dom João 6º estava longe de ser um monarca tolo e covarde, imagem que certa historiografia posterior ajudou a construir.

A opinião é do historiador português António Ventura, professor na Universidade de Lisboa e um dos organizadores da exposição que ocorre na Biblioteca Nacional de Portugal sobre o bicentenário das Guerras Peninsulares, ou seja, da invasão francesa em 1807 até sua expulsão definitiva, em 1814.

Para Ventura, convinha a Junot retratar o príncipe regente como fraco e a corte portuguesa como covarde no momento em que invadia o país. Também parte da historiografia portuguesa do século 19 e início do 20 contribuiu para essa imagem, que ainda hoje se encontra em Portugal e no Brasil.

Ventura diz que já à época houve distinções no modo como a decisão foi encarada pelos portugueses. A maioria dos comentários no início do século 19, diz, é favorável à transferência, tida como acertada por "preservar a legitimidade" da coroa, "mesmo que do outro lado do Atlântico".

Segundo Ventura, o objetivo principal da transferência da corte era "a preservação física da família real". "Desse modo, os franceses não puderam fazer em Portugal o que haviam feito na Espanha, ou seja, forçar o rei a abdicar do trono."

Parte de uma monarquia

Em um artigo para a revista "Atlântico" deste mês, o historiador português Rui Ramos, doutor pela Universidade de Oxford e também professor na Universidade de Lisboa, afirma que, então, "Portugal não era um Estado-nação, mas apenas parte de uma monarquia".

Só assim é possível entender melhor o que significava a decisão de preservar a integridade da família real e como era possível fazer a opção de deslocá-la para outro território.

"Dom Rodrigo de Sousa Coutinho, o mais importante ministro do governo do príncipe regente dom João", escreve Ramos, "já concluíra que Portugal não era "a melhor e mais essencial parte da monarquia". Essa "melhor e mais essencial parte" era o Brasil".

A importância da colônia americana, segundo António Ventura, também contou para a decisão, especialmente pela pressão do Reino Unido, que tinha interesse em comercializar diretamente com o Brasil (de fato, dom João 6º abriu os portos brasileiros "às nações amigas" ao chegar ao país).

De todo modo, a decisão "não foi tomada de última hora". "Uma viagem como aquela não poderia ser preparada em pouco tempo. A viagem foi planejada com bastante antecedência. Toda uma biblioteca [A Real Biblioteca, hoje parte da Biblioteca Nacional] foi catalogada e transferida, por exemplo."

Outro fator a impulsionar a decisão de deixar Portugal, de acordo com o historiador, era a fraqueza conhecida do Exército português. "Dom João 6º tinha consciência da fraqueza do Exército. Qualquer resistência seria suicida."

A transferência da corte, afinal, terminou sendo mais importante para o Brasil do que para Portugal, diz o historiador. "É o seu momento fundador. De 1808 a 1822, o Brasil é o centro da monarquia", afirma."E são assim criadas as condições para a independência do país. Costumo dizer aos meus alunos que, em 1822, fazer a independência do Brasil era como colher um fruto maduro."

(RAFAEL CARIELLO)