Voo na Cidade do Rio de Janeiro - Foto: Alexandre Macieira | Riotur

O Rio de Janeiro é uma cidade de extremos. Há aqueles mais visíveis – a geografia acidentada que alterna mar, montanhas, lagoas e rios. São poucos os lugares da cidade dos quais não se observa um acidente geográfico.

Há os extremos sociais, estes também muito visíveis. Uma cidade de miséria ao lado de uma rica e sedutora. Como explicar para um gringo São Conrado? E o Vidigal a poucos quilômetros do Jardim Pernambuco? Ao contrário de São Paulo, por exemplo, cidade plana com periferias distantes, no Rio os extremos sociais são um bololô.

Mas esses extremos vão muito além do visíviel. O psiquê da cidade também é inconstante. O Rio é um flerte permanente com a euforia e a depressão. A cidade vai de um canto ao outro sem filtros, sem lastro, sem mandar recado. Basta ver o momento histórico: fomos, como quem vira uma chave, de uma década de euforia, Copa, Olimpíadas, UPP, Cabral popular, Eike e boom dos imóveis para um quadriênio de Pezão, repique da violência e crise econômica.

E nós, cariocas, vivemos isso com a alma. Durante o ápice, fechávamos os olhos para a roubalheira do PMDB, reelegemos Cabral governador com a segunda maior aprovação do Brasil, nos emocionamos com a “”“retomada””” do Complexo do Alemão. Hoje, lamentamos a “fossa sem precedentes” da cidade. Ela prece decadente, mais perigosa do que nunca – muito embora os índices de violência estejam bem abaixo dos anos 90. A cidade acabou, alguns dizem. A única solução é o aeroporto.

Não notamos que é apenas mais um capítulo desse nosso estranho amor. Nosso amor pelo Rio não linear nem racional. É esse misto de euforia com depressão. Adoramos falar mal da cidade e enumerar seus podres para, no momento seguinte, estar defendendo com unhas e dentes para quem fale mal.

Daqui a dois anos, podem ter certeza, a pauta vai ser o renascimento do Rio. E será um renascimento sublime. A Veja trará como capa “O Rio renasce”, o carnaval terá um enredo vitorioso com as maravilhas da cidade, um dos times será campeão brasileiro, sediaremos megaeventos em sequência, nos encantaremos por um homem público supostamente virtuoso, acharemos uma nova fórmula mágica para combater a violência.

Depois dessa euforia virá uma nova depressão. Pessoas se mudando, um mundo desabando. E assim iremos. Como nossa geografia, inconstante. Com picos e vales. Vivendo esse nosso estranho amor.

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Marcos é carioca e formado em Jornalismo pela PUC-Rio. Trabalhou com empreendedorismo desde a faculdade, coordena a ONG PECEP e trabalha no Instituto Phi. No tempo livre, gosta de ler e praticar esportes. Seus livros preferidos são “A revolução dos bichos”, “Amor nos tempos do cólera” e “O banqueiro dos pobres”.

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