Inverno na Lagoa por Fabiano CarusoEscrevo o Diário do Rio desde o início de 2007, ano em que tivemos os Jogos Panamericanos, e a maioria dos cariocas exalavam otimismo. O Rio iria sediar um grande evento, que foi um sucesso, era primeiro ano do governo Sérgio Cabral, depois de 8 anos de Garotinho, prometia ser uma maravilha (ressalto que nunca gostei de Cabral mas era um alento se comparado com a família Garotinho). E o otimismo continuava, tinha o Eike Batista, um bilionário carioca, prometendo mundos e fundos para a cidade e continuamos assim até junho de 2013.

Digo junho como um mês marcante, não que estivesse sentindo antes algumas notas de pessimismo, mas com as manifestações parece que houve um certo despertar. E aí temos a decadência de Eike, a derrubada na popularidade do governador e vários sinais de incompetência de Eduardo Paes durante a Jornada Mundial da Juventude, que apesar da experiência que o Rio tem com grandes eventos, só não foi um verdadeiro desastre, graças a alegria e simpatia dos peregrinos, além da humildade e paixão do Papa Francisco .

Pois, desde junho sinto um carioca mais pessimista com o futuro da cidade, apesar de ter para mim que será brilhante. Sim, a JMJ foi uma vergonha, foram cometidos erros primários, como a escolha do espaço em Guaratiba, um Papa preso em engarrafamento, metrô parando e peregrinos saindo ao mesmo tempo de Copacabana. Mas a Copa será diferente, não são tantos e todos indo apenas para um local. Já no Rio 2016, aí sim, o Rio precisa se preparar de uma forma completamente diferente mas como é ano de eleição, e Eduardo Paes vai querer fazer seu sucessor, acho que o Rio estará bem melhor.

Hoje, o colunista de O Globo, Arnaldo Bloch, escreveu uma coluna chamada “A Máscara do Rio Precisa Cair”, é um texto pessimista, sim, mas reflete muito do que os cariocas estão pensando atualmente.

A máscara do Rio precisa cair

Está valendo mais sentar sobre a propaganda que ter a coragem cívica de dar o próximo passo

Lembro-me bem da manhã ensolarada, dois anos atrás, em que fui visitar o Pavão-Pavãozinho, em Ipanema, que havia virado UPP. Achei interessante, mas estranhei aquela fachada com cara de prédio residencial, o elevador bonito, panorâmico, e o grande corredor estilo sci-fi levando a uma porta, uma simples porta, que, ao abrir-se, dava, finalmente, para a realidade: a favela de sempre, com suas vielas e sua miséria.

Tomava guaraná numa birosca quando se iniciou um tumulto. Nada demais, briga familiar, um primo louco mamado levando um “pedala”. Chamou-me atenção um pitbull solto que resolveu não atacar ninguém, embora tenha me olhado com desconfiança.

De lá para cá, o Rio viveu uma euforia: outros morros libertos, choque de ordem, Copa do Mundo e Olimpíadas no papo, pré-Sal: anunciava-se um ciclo de ouro para a cidade, com explosão hoteleira, maquiagem das praias, Porto Maravilha, BRTs, algo jamais visto, nem quando o Rio era capital.

Cabral não cabia em si. Paes era só paz. Beltrame, o paladino da Justiça. Não havia quem, impunemente, não comprasse a ideia. E quem ousasse dizer um “ai”, pedir prudência, era tachado de inimigo, espírito de porco, na contramão das evidências.

Hoje, passada a primeira onda recente de manifestações (que não foi um fenômeno carioca, mas nacional), parece que a máscara da cidade, saturada por essa bolha de otimismo acrítico, quer cair. Como se tivéssemos saído do túnel mágico do morro ipanemense, abríssemos a cortina do passado e descobríssemos que as mazelas estão todas aí, remexidas pelos exageros, ansiando por uma análise mais pormenorizada, menos marqueteira.

Se não, vejamos. O que vemos? O AfroReggae, símbolo da conexão morro-asfalto, sai praticamente fugido do Alemão. Não é bom sinal. O morro está melhor, virou ponto turístico, com bondinho, mas devagar com o andor: tem boi na linha. O caso Amarildo está aí, a assombrar as noites das famílias. A palavra pacificação, em que pesem todas as advertências feitas por Beltrame (que várias vezes disse tratar-se apenas de um primeiro passo), tornou-se um termo absoluto que não leva em conta sua outra face: está valendo mais sentar sobre a propaganda que ter a coragem cívica de dar o próximo passo.

O próprio Beltrame, para quem Cabral repassa todas as culpas, agora, da vergonhosa ação da PM diante dos últimos tumultos de rua, já não é mais aquele. Fico imaginando se o rapaz fichado e demonizado rapidinho pela opinião pública fosse de fato processado criminalmente. O militante, que estava, é bom dizer, na “linha de frente”, já ia se convertendo num Dreyfus carioca, bode expiatório ideal para o agora impopular Cabral despejar sua tendência autoritária (sua fome de inconstitucionalidade ficou clara com a primeira versão do decreto da comissão dos vândalos). No final, com auxílio da engajada, mas útil, Mídia Ninja e de um cinegrafista amador, a farsa caiu por terra numa reportagem do “Jornal Nacional”.

E o que vemos nos transportes, mal o Papa põe os pés na cidade? A completa pane dos trens e metrôs ao primeiro verdadeiro teste de capacidade. E a ignorância sobre o trajeto do pontífice, que podia ter desandado em tragédia.

O slogan “Imagina na Copa”, que uma cervejaria tentou inverter a favor da espuma otimista, cada vez mais significa o que significa mesmo: a cidade-evento está pagando mico, sendo zoada por ciumentos estrangeiros, deixando inseguros os exploradores dos referidos eventos e os turistas. Ainda bem que o Rio continua lindo. Mas… e os preços? Pizzas a R$ 70, águas a R$ 10… somos a cidade mais cara do mundo, um risoto em Milão é pechincha perto de qualquer espelunca chique do lado de cá. Temos cacife para tanto?

O Rio continua lindo sim, e o caixa alto vai manter os eventos aqui (é o que salva). Seu povo bom continua bom mas… cadê o Rio?, cadê o povo?, numa malha urbana lotada de equipamentos que apagam o sol, o céu e o mar? O Engenhão foi para a UTI, e amanhã, no Maracanã, a torcida do Flamengo, a torcida do povo, a mais querida, está proibida de entrar, a não ser que se disponha a gastar meio salário mínimo (um pouco menos se não levar a patroa) para ver o jogo contra o Botafogo. Teremos mais um espetáculo Zona Sul no maior do mundo, que virou um pequenino estádio colorido parecido com tantos outros pequeninos estádios coloridos obedientemente retroFIFAdos.

É isto o que o Rio está se tornando: uma cidade-padrão. Um colosso chato e besta. Ordem confunde-se com uniformização, e uniformização, como todo mundo sabe, é o primeiro passo para a exclusão. A cidade partida continua partida. A partida mal começou.

Se o Rio e suas autoridades não baixarem a bola, vai chover a chuva furiosa dos céus na etapa final, vai vazar a lama do Posto 5 que continua fedendo, e o consolo vai ser uma leitura pública do “Ai de Ti Copacabana” nas exéquias. Mas sobreviveremos.

E você está otimista ou pessimista com o futuro da cidade?

P.S: Será que a Veja Rio fará um Falha Nossa ao dedicar a capa e uma matéria super elogiosa a Leonardo Maciel, presidente da Rio Eventos e responsável pelos grandes eventos da cidade.

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