O fim da batucada

Da série de artigos, reportagens e entrevistas que a Folha de São Paulo fez em 26 de novembro de 2007 sobre os 200 anos da vinda da Família Real de Portugal para o Brasil. Acompanhe o índice aqui.

Originalmente publicado aqui.

O fim da batucada

Marcadas por exuberância e fusão entre sagrado e profano, festas do catolicismo popular passaram a ser perseguidas no Rio após 1808

MARTHA ABREU
ESPECIAL PARA A FOLHA

Ao chegar em terras americanas, em 1808, dom João não deve ter estranhado muito a quantidade de festas religiosas, especialmente na cidade do Rio.

A prática religiosa católica era uma marca inconfundível dos domínios portugueses e até hoje estabelece importantes traços identitários do Brasil.

Festas como as de Nossa Senhora de Nazaré, Nossa Senhora do Rosário, Nosso Senhor do Bonfim, Nossa Senhora Aparecida, São João, Santo Antônio, folias do Divino Espírito Santo, folias de Reis, embora muito diferentes das do tempo de dom João, permanecem nos lembrando que o catolicismo ainda é referência, embora nem todos sejam tão bons católicos assim.

O século 19 recebeu de herança o que ficou conhecido por "religiosidade colonial" ou "catolicismo barroco", como definiu João José Reis.

As práticas católicas eram marcadas pelas espetaculares manifestações externas da fé, presentes nas pomposas missas das irmandades, nos funerais grandiosos, nas procissões cheias de alegorias e nas festas, em que centenas de pessoas se alegravam com música, dança, mascaradas, fogos de artifício e barracas de comidas.

Implantado juntamente com a colonização portuguesa, graças ao direito de padroado, esse catolicismo formava um sistema único de poder e legitimação, associando, numa interpenetração estreita, o Estado e a Igreja, o profano e o sagrado. As festas religiosas acentuavam a identificação entre o rei e a religião.

O que dom João deve ter realmente estranhado foi a quantidade dessas festas, muito pouco atingidas pela vigilância das autoridades reformadoras católicas, além da presença de devotos das mais variadas condições, origens e cores.

O frágil trabalho de evangelização do clero e das ordens religiosas tornava os leigos e suas irmandades os maiores agentes do catolicismo barroco, repleto de sobrevivências pagãs, com seu politeísmo disfarçado, superstições e feitiços.

A historiografia que cuidou do assunto costuma estabelecer o período após a chegada da corte como um marco do início da perseguição da polícia aos batuques, festas negras e procissões organizadas pelas irmandades de escravos.

Debret, o artista francês que viveu no Rio entre 1816 e 1831, explicava que, com a presença da corte, tinham sido proibidos "aos pretos as festas fantasiadas extremamente ruidosas a que se entregavam em certas épocas do ano para lembrar a mãe pátria".

Na sua perspectiva, essas proibições tinham privado os ditos pretos de uma "cerimônia extremamente tranqüila, embora com fantasias, que haviam introduzido no culto católico". Por esse motivo, só era possível observar a eleição de reis, rainhas e capitães de festas em outras Províncias do país.

Não se quer dizer que no período colonial inexistiu repressão a essas grandes danças de africanos e seus descendentes. Mas, sem dúvida, a corte portuguesa parece ter trazido novas preocupações em relação às festas religiosas. Afinal, eram tempos de idéias liberais, e as manifestações do catolicismo popular começavam a ser avaliadas como sinais de atraso e entraves ao progresso.

Em Portugal, no final do século 18, presenciou-se o estabelecimento, a partir de um modelo francês, de uma política, defendida por médicos e intelectuais, voltada para atender às necessidades de formação de "homens saudáveis" e de hábitos ditos civilizados. Procurava-se diminuir a distância entre Portugal e o resto do mundo. Medidas repressoras e educativas procurariam intervir na quantidade e na qualidade das festas religiosas, nas atividades lúdicas, diversões e jogos em geral, privilegiadamente as touradas.

Setores reformadores buscavam diminuir o que consideravam desperdício de vidas e de dias de trabalho: as inúmeras brigas e bebedeiras nas festas, as inúmeras obrigações com os santos. Para essas ações, foi criada a Intendência Geral da Polícia da Corte e do Reino de Portugal.

Um órgão semelhante a esse só foi criado especificamente na cidade do Rio de Janeiro, com a transferência da corte. O primeiro intendente, Paulo Fernandes Viana (1808-1821), marcou sua trajetória pela perseguição, sem tréguas, ao que considerava "antros de feitiçaria" de negros.

Não abriu mão da severa vigilância sobre a ordem pública, preocupação que se tornaria básica para os defensores da transformação da cidade em capital imperial dentro dos padrões das cortes européias. Juntamente com a intendência, e subordinada a ela, foi criada a Guarda Real, em que se destacou Miguel Nunes Vidigal, imortalizado no livro de Manoel Antônio de Almeida como um grande perseguidor de "desordeiros", batuques e quilombos.

As discussões sobre a organização do novo país após a Independência política, em 1822, devolveram às Câmaras Municipais importantes responsabilidades pela segurança da cidade, em termos de controle sobre as festas e diversões populares. Com outros órgãos ou com justificativas sempre mais modernas e atualizadas, as políticas das festas e as polícias dos divertimentos continuaram a ter que lidar com a audácia dos festeiros populares. Suas persistentes e renovadas crenças e festas quase nunca caminharam junto com os sonhos europeizantes das elites políticas e religiosas.

Até hoje.


MARTHA ABREU é professora de história na Universidade Federal Fluminense, autora de "O Império do Divino – Festas Religiosas e Cultura Popular no Rio de Janeiro" (ed. Nova Fronteira