O primeiro ano do resto de nossas vidas

Da série de artigos, reportagens e entrevistas que a Folha de São Paulo fez em 26 de novembro de 2007 sobre os 200 anos da vinda da Família Real de Portugal para o Brasil. Acompanhe o índice aqui.

Originalmente publicado aqui.

O primeiro ano do resto de nossas vidas

José Murilo de Carvalho e Kenneth Maxwell defendem que a vinda da família real foi o marco zero da existência política do Brasil; já para Evaldo Cabral de Mello, "herdamos desse período o pior" que havia

"O Brasil não existiria", afirma Carvalho

SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL

Autor de uma biografia do imperador dom Pedro 2º ("Dom Pedro 2º -Ser ou Não Ser", Cia. das Letras) que passou meses nas listas de livros mais vendidos, o historiador mineiro José Murilo de Carvalho acredita que a unidade territorial é uma das questões mais importantes a serem debatidas na efeméride dos 200 anos da vinda da família real. Ela teria sido responsável pelo "Brasil de hoje".

Mas, ao ponderar sobre se isso é bom ou ruim, Carvalho prefere evocar Guimarães Rosa: "pãos ou pães, questão de opiniães". Leia abaixo trechos da entrevista que o professor da Universidade Federal do Rio d\e Janeiro concedeu à Folha, por e-mail.

FOLHA – As celebrações dos 200 anos da vinda da família real estão começando a tomar espaço na mídia e na academia. Que aspectos o sr. acredita serem mais importante levantar para a discussão sobre esse episódio hoje?

JOSÉ MURILO DE CARVALHO – Há dois momentos distintos igualmente importantes. O primeiro, a vinda da corte em si. O segundo, as conseqüências dessa vinda. Em nenhum dos dois casos houve determinismos históricos. O príncipe dom João podia ter decidido ficar em Portugal. Nesse caso, o Brasil com certeza não existiria.

A colônia se fragmentaria, como se fragmentou a parte espanhola da América. Teríamos, em vez do Brasil de hoje, cinco ou seis países distintos. Uma vez decidida a vinda, as coisas também poderiam ter tomado caminhos distintos, inclusive a fragmentação. Discutir essas alternativas e os fatores que conduziram os acontecimentos para a direção que tomaram me parece ser um tema relevante.

FOLHA – Quais incorreções nas interpretações sobre essa passagem da história deveriam ser revistas?

CARVALHO – Há excessiva, quase exclusiva, ênfase na decisão de dom João 6º de fugir da Europa. Ora, o grau de liberdade que tinha era mínimo. Toda sua ação foi pautada pelo conflito europeu, pela rivalidade entre a França napoleônica e o Reino Unido. Suas únicas opções, grandes opções sem dúvida, eram fugir ou não fugir.

Sem a França, ele não teria pensado em sair. Sem o Reino Unido, ele não teria conseguido sair. O estudo desse condicionamento está quase totalmente abandonado.

É positiva a recuperação das imagens de dom João 6º e de Carlota Joaquina e seu resgate em relação às abordagens caricatas do tipo exibido no filme de Carla Camurati ("Carlota Joaquina – Princesa do Brazil", 1995). A respeito desta, o trabalho foi feito pela historiadora Francisca de Azevedo [autora de "Carlota Joaquina na Corte do Brasil" (Civilização Brasileira) e organizadora da correspondência da princesa, recém-lançada pela Casa da Palavra].

FOLHA – Do ponto de vista da academia, o sr. acredita que a efeméride trará um elemento novo ao debate, que possa contemporizar vertentes historiográficas diferentes? A saber: os historiadores mais ligados ao marxismo, que acreditam que o processo de ruptura do Antigo Regime levaria o Brasil à Independência, inevitavelmente, e, por outro lado, os historiadores que privilegiam a dinâmica interna na constituição do Brasil livre. Há conciliação possível?

CARVALHO – Creio que o debate a que você se refere tem a ver com ênfases distintas em diferentes determinações do processo e da natureza da Independência: fatores externos ou internos, econômicos ou políticos. As diferenças continuarão.

Quanto a mim, não concebo história sem ação humana e não concebo ação humana sem contexto histórico. Daí não acreditar em determinismos nem em aleatoriedade.

Sobre a Independência, o importante é discutir como ela se deu. A grande diferença em relação à América espanhola foi a manutenção da unidade da colônia portuguesa e a monarquia. Daí veio o Brasil de hoje. Se para o bem ou para o mal, é [o escritor] Guimarães Rosa quem decide: "Pãos ou pães, questão de opiniães".

FOLHA – Seu livro sobre dom Pedro 2º é um best-seller. A que o sr. atribui esse sucesso? O que tem atraído tanto a atenção dos leitores?
CARVALHO
– Creio que a boa recepção do livro tem a ver com o momento histórico.

Depois do mensalão e de outras bandalheiras políticas, da conseqüente desmoralização dos poderes constitucionais, sobretudo do Congresso, da predominância na vida pública do interesse privado e da ausência de virtude republicana os cidadãos estavam em busca de exemplos de governantes com espírito público.