O príncipe contra-ataca

Da série de artigos, reportagens e entrevistas que a Folha de São Paulo fez em 26 de novembro de 2007 sobre os 200 anos da vinda da Família Real de Portugal para o Brasil. Acompanhe o índice aqui.

Originalmente publicado aqui.

O príncipe contra-ataca

Herdeiro do trono brasileiro e membro da TFP, dom Luiz de Orleans e Bragança critica historiadores por "denegrirem a imagem" da nobreza

DA REPORTAGEM LOCAL

Não foram só os antichavistas que acharam merecido o "por que não te calas?" endereçado pelo rei espanhol Juan Carlos ao presidente venezuelano.

Numa grande, porém discreta, casa no bairro do Pacaembu (São Paulo), onde funciona a sede da Casa Imperial do Brasil, dom Luiz de Orleans e Bragança, 69, viu no episódio um bom sinal.

"A repercussão mundial da fala do rei mostra o carisma que a monarquia ainda possui. Chávez é um demagogo mal-educado, mas, quando apareceu o rei da Espanha, com séculos de tradição atrás de si, ele se sentiu inibido", disse, em entrevista à Folha, na sala decorada com brasões do império.

O príncipe herdeiro da coroa brasileira é um homem de traços europeus e membro da TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade), instituição ultraconservadora católica.

Dom Luiz é bisneto da princesa Isabel e trineto de dom Pedro 2º. Nascido na França, para onde a família real foi obrigada a se exilar por ter sido banida pela República, veio ao Brasil pela primeira vez quando já tinha 7 anos.

"Lembro-me como se fosse hoje. Foi durante a Segunda Guerra Mundial, e me recordo das pessoas no navio comemorando quando o Japão pediu a paz. Quando cheguei ao Rio, havia uma névoa, e só se podiam ver nesgas do Pão de Açúcar. E eu, que até então me sentia totalmente em casa na França, pensei: "Aqui nós temos uma missão"."

Imbróglio sucessório

A questão da sucessão do trono brasileiro é bastante controversa. Aquele que seria o herdeiro direto da coroa depois da princesa Isabel deveria ter sido seu primogênito, dom Pedro de Alcântara.

Porém, ao decidir casar-se com uma mulher que não pertencia a uma casa reinante da Europa, ele foi levado a renunciar ao título, que passou automaticamente a seu irmão mais novo, dom Luiz (avô do atual príncipe).

Os descendentes de ambos passaram a formar então dois ramos, o de Petrópolis e o de Vassouras, que nunca se entenderam muito bem com relação ao assunto.

O atual chefe da casa de Petrópolis, dom Pedro Gastão, alegou que a renúncia não era válida, por ter sido pedida depois da Proclamação da República. Já o ramo de Vassouras, atual detentor do título, defende-se com o argumento de que a decisão de Alcântara não pode ser revertida.

Bem mais conservador que a linhagem de Petrópolis -à qual pertence, por exemplo, o festeiro e parlamentarista dom João, de Paraty-, o ramo de Vassouras dedica-se à divulgação da causa monarquista e à arregimentação de defensores do regime pelo país.

Em 1987, durante a Assembléia Nacional Constituinte, dom Luiz escreveu cartas aos parlamentares brasileiros para pedir o fim da cláusula pétrea, que dizia que não podia ser colocada em discussão a forma republicana de governo. "Eu defendia que a cláusula era sumamente contrária aos princípios democráticos que os próprios parlamentares diziam professar. Afinal, era uma injustiça permitir que o Partido Comunista existisse e não permitir a existência dos monarquistas."

Já em 1993, quando houve o plebiscito para decidir entre os três sistemas -presidencialista, parlamentarista e monarquista-, dom Luiz e seus irmãos se engajaram na luta por este último. Sem considerar o anacronismo de sua posição, o príncipe segue convencido de que a monarquia tinha chances de vencer naquela ocasião.

"Tivemos 13% dos votos válidos, e isso sem ter acesso aos meios de comunicação, como acontece com os partidos. Não pudemos aparecer no horário político, e o plebiscito foi apresentado à sociedade muito mais como uma escolha entre parlamentarismo e presidencialismo. Se tivéssemos tido espaço, o resultado certamente teria sido outro."

Para ele, a forma ideal para o Brasil seria uma monarquia constitucional parlamentar.

"O ideal seria que o regime tivesse algo de monárquico, algo de aristocrático e algo de democrático, com um Senado vitalício, uma Câmara de deputados eleita a cada quatro ou cinco anos, um Judiciário e um Legislativo independentes e um Executivo exercido por um primeiro-ministro, indicado pelo soberano, de acordo com a maioria parlamentar do momento. Além do Poder Moderador, que era algo genial que nossa Constituição do império tinha e que depois outros países, como a França, quiseram copiar", diz.

Reescrever a história

Dom Luiz é também um entusiasta defensor das iniciativas de dom João 6º.

"É preciso reforçar que dom João 6º não saiu fugido do Brasil, nem que era um bobalhão, como se diz hoje. As pessoas também falam que era um sujeito indeciso, mas a verdade é que era um tipo tranqüilo, que tocava as coisas com muita esperteza. Foram impacientes com ele. É verdade que não era um homem bonito, não podia ser considerado um Adônis, mas até aí…"

Na comemoração dos 200 anos da vinda da família real, dom Luiz diz que gostaria de ser ouvido e que se pensasse em reescrever os livros escolares de história. "Houve uma campanha sistemática para denegrir nosso passado imperial e os grandes vultos desse período. Depois vieram os marxistas, que, com sua visão dialética, só vêem a luta de classes, e nunca a paz."

(SYLVIA COLOMBO)