N.E: Este texto do professor do PH Filipe Couto rodou pelo Facebook em 2014 e é uma declaração de amor ao Rio de Janeiro tão linda que achei que tinha de estar aqui no DDR.

Pôr do Sol. Praia de Copacabana, Rio de Janeiro por André Bispo

O meu Rio de Janeiro comporta e amansa muitos clichês.

É a terra entre o mar e a montanha, onde mora o sol que arromba, alumbra e desperta a vista de quem o vê.

Mas o meu Rio não é só um lugar. É um modo especial de enxergar a vida. Nascer no Rio é circunstancial; ser do Rio é um estado de espírito.

Ser carioca não é gostar de praia, embora lá possamos encontrar a metonímia de tudo aquilo que belamente representamos. Existem cariocas que gostam de calor, e os que não gostam; os de corpos sarados e os sedentários; os do samba e os do rock. Não é isso que nos define.

Somos profundamente emotivos, impulsivos. A carioquice está no abraçar, dar dois beijos e mexer no cabelo de quem nunca se viu antes na vida. Depois desse ritual de encontro, sabemos: se a pessoa abriu um sorriso, já nos conquistou e merece ser tratada, não pelo nome, mas por um diminutivo carinhoso, nossa maneira de dizer: “Você é dos nossos…!”

Mania de Havaianas por Rafael Pacheco

E queremos ser livres. Chinelo é nossa roupa de gala. E não temos medo algum de marcar compromissos e desrespeitá-los. Quando dizemos para alguém querido “Vamos marcar alguma coisa?”, estamos, na verdade, dizendo: “Eu gosto demais de você… Tomara que a gente se esbarre com tempo em outra ocasião”.

Acusam-nos de conformistas e indolentes. Nada disso. Somos debochados. Botamos pilha. Zoamos. É a nossa manifestação sociológica mais apaixonante, pra mim. Há quem, de fora, também interprete isso como rudeza; pelo contrário, é nossa forma de dizer para o mundo: não queremos brigar. Nossas provocações são manifestações de paz. Porque queremos paz.
Na nossa essência, não há classes ou cores. Nas praias e nos estádios, estamos todos juntos. Por isso, para um carioca de verdade, dói tanto ver quem queira fechar espaços privados, ou oferecê-los para um público selecionado. Isso é o anticarioquismo em toda sua força.

No Rio, ninguém se diverte sozinho. Por isso, enchemos as ruas em diversas ocasiões. Não importa se é Carnaval, se disseram que se trata de uma manifestação política, se estamos em redes sociais: precisamos uns dos outros. A conversa à toa, às vezes, parece-me invenção nossa. Gostamos de estar juntos.

Foto de Tainá Del Negri

A cultura popular é a nossa cultura. Oferecemos flores à Iemanjá, acreditamos em reencarnação, casamos na Igreja. É-nos inconcebível a intolerância religiosa ou sexual.

Hoje é dia de São Sebastião; é dia de Oxóssi.

Que suas flechas, meu pai, nos protejam de todos aqueles que nos querem fazer perder nossa verdadeira essência, tornando-nos uma “filial de Ibiza” ou uma terra de apartheid. Não somos perfeitos. Somos o Rio: o mundo que copie nosso jeito de ser.

E sim: somos marrentos merrrrrmo.

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