“Obrigado Napoleão”, Dizem os Brasileiros

“Obrigado Napoleão”, Dizem os Brasileiros

Le Monde: 5/3/2008

Todos os brasileiros o dizem: o país deles existe graças a … Napoleão. O Brasil moderno é o feliz avatar de um excesso de orgulho nacional. Nasceu como nação, porque Bonaparte obrigou a família real portuguesa a fugir ao outro lado do oceano, rumo à sua imensa colônia. Cem dias depois, a dinastia dos Bragança chegava ao Rio. Foi há dois séculos, em 7 de março de 1808.

Em 1806, o imperador, no auge de seu poder, decreta o bloqueio continental contra a Inglaterra. Obrigada a cessar todo comercio com ela, a Europa se curva. Apenas Portugal demonstra mau humor. Ele não pode se decidir a trair a Inglaterra, sua antiga protetora. Ele temporiza, faz jogo duplo, finge que cede mas ao mesmo tempo assina um acordo secreto com Londres. Napoleão se volta contra o pequeno país insolente e dá um ultimato. Que se renda, ou perderá seu trono e sua frota.

Em Lisboa, reina um príncipe regente, Dom João, futuro João VI o Clemente. Sua mãe, a Rainha Maria 1ª, caiu na demência depois da morte de seu filho mais velho. Ela se recusara, por razões religiosas, a vaciná-lo contra a varíola. Dom João tem 40 anos. Obeso, tímido, indeciso, vai tomar, porém, face ao diktat francês, a boa decisão: exilar-se além mares. Há pressa, porque Napoleão ordenou que o General Junot a invada Portugal. Lá vai ele que marcha rumo a Lisboa, encabeçando uma tropa de 25 mil homens.

O êxodo rumo às Américas é um antigo projeto, sempre evocado quando o reino corre perigo. Desta vez, é necessário o fazer com diligência. Reúne-se mantimentos, coleta-se arquivos, recolhe-se as jóias da Coroa: obras de arte, lingotes de ouro, diamantes do Brasil. O conteúdo de 700 carroças vai para os navios prontos para levantar âncora. Na confusão da partida, os 60 mil volumes da Biblioteca Real e a prataria das igrejas permanecem no cais. Num raio de lucidez , a “Rainha Louca” grita na carruagem que a leva ao porto: “Menos rápido! Vão pensar que estamos fugindo”.

Na manhã do 29 novembro, a chuva parou, o sol brilha, o vento sopra. A ordem de partida é dada. A frota desce lentamente o Tejo e distancia-se sob proteção de uma esquadra inglesa. Já era hora. A tropa precursora de Junot chega ao cais uma hora depois da partida do último navio. O louco empreendimento do general acabará rápido. Milhares de insurgentes pegarão armas contra os regimentos que voltarão à França em agosto 1808. Sobre Dom João, Napoleão teria gritado: “Ele foi o único homem que tirou proveito de mim”.

Toda a elite portuguesa foge entre céu e mar. Quantos são eles? Entre 5000 e 15000, segundo os historiadores. Nobres, oficiais, juizes, comerciantes, bispos, médicos, pagens e serventes acompanham a família real em seu completo. O périplo é um pesadelo. Nada poupa estes membros da corte amedrontados e mal-humorados: tempestades, enjôo coletivo, escorbuto, falta d’água. Uma invasão de piolho obriga as mulheres a rasparem a cabeça.

Depois de 52 dias de travessia, Dom João desembarca em Salvador da Baía. Pela primeira vez um soberano da Europa toca o solo da América. A festa dura uma semana, durante a qual milhares de súditos vêm beijar a mão do príncipe. Esta escala é um golpe político. Dom João reafirma sua autoridade sobre a população das províncias do norte, ao redor de uma cidade, Salvador, primeira capital do Brasil e nostálgica de não o ser mais. O regente toma uma decisão crucial: abrir os portos ao comercio do mundo. O fim do monopólio colonial é o preço pago, por seu apoio, à Inglaterra que será a principal beneficiária.

Cem dias depois de partir de Lisboa, a frota lança âncora na baía do Rio. A família real desembarca o dia seguinte na maior alegria. Tiro de canhão, toques de sino, água benta, incenso. O contraste chama atenção entre esta cidade “africana”, povoada em dois terços de negros e mestiços, nas mãos de aventureiros e mercadores de escravos, e aquelas pessoas pálidas da corte, com roupas pesadas, um tanto ridículas.

Três séculos depois de sua descoberta por Pedro Álvares Cabral, o Brasil ainda era uma terra inexplorada. Era um país com fronteiras mal definidas, sem verdadeiro poder central, sem comercio interior nem dinheiro. Seus três milhões de habitantes quase não se sentem “brasileiros”. A chegada do príncipe transforma a colônia em metrópole. Sob seu impulso, o Rio cresce, fica mais bonito e mais sofisticado. Ele abre-se aos produtos e às idéias.

Dom João implanta um estado estável e organizado. Ele dá ao Brasil sua unidade territorial, política, econômica e lingüística. Enquanto a América espanhola pega febre e rasga-se, o Brasil se emancipa tranqüilamente sob tutela portuguesa. Em 1815, o regente proclama o “Reino Unido do Portugal, do Brasil e de Algarve”, tornado o Rio eqüivalente a Lisboa. Ele torna-se o Rei João VI. Um ano depois de sua volta a seu país natal, seu filho Dom Pedro proclama a independência (7 de setembro 1822) e torna-se o primeiro imperador do Brasil.

O Brasil de hoje festeja com orgulho o bicentenário da chegada de Dom João. Ele organiza exposições, imprime selos e emite moedas comemorativas. No último carnaval, várias escolas de samba fizeram dele seu tema de desfile. Um dos refrãos, cantado pela multidão, terminava com um alegre: “Adeus Napoleão!” Adeus, e obrigado.