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Bora curtir um cineminha?
Por Natalia Oliveira

Embora seja consenso geral (e por geral falo críticos de cinema e fãs) de que o melhor filme de Tarantino é ‘Cães de Aluguel’, foi Kill Bill que me estarreceu e despertou minha paixão para os filmes desse diretor tão peculiar. Seu novo filme, Os 8 odiados estreou nos cinemas brasileiros dia 07 de janeiro e já vem dividindo a opinião pública.Teve quem amasse, teve quem odiasse.

Meias paixões não tem espaço aqui. Confesso que ao assistir o trailer de The hateful eight, no original, achei a trama confusa e monótona, fora a temática de faroeste que já tinha sido vista em Django Livre (2012) e da qual não sou muito fã, mas sendo de quem era, a ida ao cinema sempre acaba valendo a pena de alguma forma. Pipocas em mãos, luzes apagadas, filme na tela.

Os primeiros segundos são macabros, o close na expressão facial da estátua de Jesus Cristo pregado na cruz e a gélida música de Ennio Morricone dão o tom do que serão as próximas 2 horas e 40 minutos de filme.

A trama se passa no Velho Oeste americano pós Guerra de Secessão e começa com a ida de um caçador de recompensas Jonh Ruth, O Carrasco, (Kurt Russel) a Red Rock transportando uma criminosa, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) cujo crime fica desconhecido até praticamente o final da trama, quando surge no meio do caminho outro caçador Marquis Warren (Samuel L. Jackson) com alguns corpos a tiracolo lhe pedindo um carona para chegar na mesma cidade, vale ressaltar que o filme se divide em dois cenários principais, a forte nevasca (que é o fator que obriga Warren a pedir socorro) e a pensão da Minnie que veremos adiante. Logo adiante, outro cidadão (Chris Mannix, interpretado por Walton Goggins) se interpõe em seus caminhos também pedindo ajuda pra se safar da terrível neve.

A contragosto de Ruth, Mannix embarca junto aos dois e seguem uma viagem que parecia tranquila até o momento em que o assunto vira política e deixa claro as sérias divergências entre Warren e Mannix. A tensão do filme se intensifica e começa a ganhar os contornos dos banhos de sangue que viriam a seguir (claro, porque filme de Quentin Tarantino sem banho de sangue não existe).

Daisy, uma das personagens mais emblemáticas e saco de pancadas, nessa altura além do olho roxo já coleciona um nariz quebrado e costelas fraturadas.

Nesse ponto, Tarantino consegue provocar a hipocrisia do público que gargalha gostosamente a cada soco que Daisy leva, afinal, ela parece não se importar quando apanha, o que pode ter sido uma intenção deliberada do diretor para fazer da personagem a mais forte do núcleo.

Devido ao mal tempo, o grupo precisa pernoitar na pensão da Minnie, que segundo um funcionário, está fora visitando a mãe.
Lá, se encontram mais três misteriosos homens, Joe Gage (Michael Madsen), General Sanford Smithers (o incrível BruceDern de ‘Nebraska’) e Oswaldo Mobray (Tim Roth que convence na imitação de Christopher Waltz).

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A partir daí a trama se desenrola em torno do já conhecido enredo: pessoas confinadas em um lugar e conflitos que surgem a partir dessa situação (daí a comparação com Cães de Aluguel).

Para um olhar mais desatento, para por aí. Porém, o filme não merece essa alcunha tão superficial, já que se mostra tão rico em alguns detalhes, como na cena em que Mobray faz uma breve explicação a Daisy sobre a diferença entre um enforcamento, um assassinato comum (para quem leu Hobbes, é um prato cheio) e o senso de justiça (que é constantemente retratado no filme através de códigos sociais invisíveis que regem a sociedade da época, como por exemplo, o momento em que Warren provoca Smithers para que esse tente matá-lo e ele possa atirar segundo a norma da legítima defesa – o que o livraria da forca).

Com diálogos breves, impactantes e por oras engraçados, além da similaridade com Cães e Um drink no inferno (nas cenas trash de sangue), nota-se aqui um quê de Agatha Christie sendo Warren o Poirot, cuja missão é desvendar quem está tramando impedir Ruth de levar Daisy à forca. Um detalhe curioso sobre os filmes de Tarantino é o uso da palavra ‘fuck’, só em Cães de Aluguel foram ditos 200 “fucks” e em Pulp Fiction 169, aqui espantosamente, são usados meros 18 “fucks”, porém se engana o leitor ao pensar que ele idealizou personagens mais brandos.

Aqui, o ódio é expresso em palavras como “nigga”, “mexican” e “bicth”, todas usadas como características dos personagens quando um referia-se ao outro. Essas características acabam sendo reveladoras ao mostrar o que um mais odeia no próximo (Warren por ser negro e Daisy por ser mulher são os mais ofendidos ao longo do filme).

Não enxergo Tarantino como racista e machista como alguns preferem enxergar, ao contrário,os 8 odiados é uma rebuscada crítica ao racismo americano. Quanto a Daisy, a impressão do início se confirma e ela se mostra a personagem mais forte e inteligente do grupo junto a Warren.

Com metade do elenco morto, descobre-se quem deseja tanto salvar a criminosa e os motivos.
Nesse momento, o filme toma ares de O Poderoso Chefão ao mostrar o amor e a lealdade do irmão para com ela (sentimento de família) e o conceito de máfia, porém aqui travestido como gangue (o que mostra que os EUA não deviam em nada a Itália nesse quesito).

Por sorte, a patética explicação não toma muito tempo e o filme encerra com a lida da misteriosa carta que Abraham Lincoln escreveu a Warren citada em vários momentos do filme.

Em um trecho que diz sobre a América caminhar de mãos dadas com seus cidadãos, o enquadramento da câmera nas mãos da enfim enforcada Daisy atrelada à mão decepada de John Ruth, mostra que a América caminha para muitos lados, menos o das mãos dadas.

A Natalia é a nossa colunista convidada da semana!
Para encontrá-la, siga o @oquefazernorio, onde ela dá ótimas dicas do Leme ao Pontal, da Pavuna a Botafogo, para quem quer curtir muito a Cidade Maravilhosa!

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