Tired por Phil Romans

Que cansaço é esse que não me permite realizar as coisas que eu gostaria de fazer? Uma depressão que se arrasta e me torna refém de uma desgraça pesarosa! Será que eu não quero aquilo que desejo?

Parece simples, mas não é. Os transtornos me atordoam e me deixam numa escuridão sem condições de poder discernir o que eu verdadeiramente quero. Sinto-me aprisionado, sem recursos para levar adiante os meus projetos, perdido nas indecisões. O que fazer com essa terrível alternância do humor, disso que me tira do sério, lançando-me em uma confusão que arranca o querer das minhas decisões? O fracasso reiterado na minha vida amorosa faz com que eu me sinta um derrotado, sem posibilidades de reagir no conforto frente às paralisias do meu querer. Estou sendo nocauteado pela minha própria vida!

De onde vêm esses sofrimentos que me impedem de usufruir o que tenho nas minhas mãos? Parece que a minha cabeça é uma eterna fonte de erros que me levam ao insucesso. Sinto-me condenado à repetição de um nada que não leva à lugar algum!

O que adoece o ser humano? Você pode não aceitar, nem mesmo acreditar, mas a raiz de todo e qualquer transtorno psíquico não se encontra em nenhuma transmissão hereditária, biológica, fisiológica. Nada disso justifica o nascimento de uma patologia psíquica! Destino? Isso não existe! Mal olhado, fatalidade, desvios religiosos não constituem elementos capazes de causar patologias.

O que realmente adoece o ser humano, desde seus primeiros tempos de criança, são as palavras dos pais. As palavras dos pais, ou de seus substitutos, têm o poder de fustigar, de arrasar, de aniquilar a vida de uma criança. Elas podem desenhar uma trajetória para o melhor ou para o pior. Algumas palavras são vividas e sentidas como extremamente traumatizantes. O interessante é que pode acontecer de não ser somente uma palavra má. Pode ser também uma boa palavra, dita com boas intenções. O problema é a sua tenacidade, o teor de uma exigência que vem carregada do forte peso de certos ideais. Isso sim pode levar uma criança a sucumbir e a fracassar na vida.

O tom da voz dos pais, o conteúdo das palavras, o fora do tempo de suas intervenções: isso adoece uma criança, esta que continuará viva, habitando a intimidade do jovem, atrapalhando o bom andamento de uma trajetória do adulto até os últimos dias de sua vida. Mais ainda, esta criança, adoecida do peso de algumas palavras, ela mesma vai carregar a sua patologia, dentro do homem, como um bem precioso para ele pelo resto de sua vida. O indivíduo vive no conforto das suas resignações pois ele tem medo de pensar!

Mas o ser humano, ele mesmo deseja mudar? Quase sempre não! Por quê? Sua dificuldade reside no medo de deixar de ser esta criança magnífica que sustentou o desejo de seus pais, que preencheu suas lacunas, suas faltas, seus desencontros, suas dores. O sujeito passa a se reconhecer amado, mesmo que em sua desgraça, nesta posição diante da vida que se lhe apresenta. Ele tem medo, um certo horror de ser ele mesmo, dificuldades de tomar as rédeas da sua vida. Por isso mesmo ele não se questiona, aceita de bom grado, a vida como esta se apresenta.

Viver, pois, a vida como ela se apresenta é, por assim dizer, continuar no conforto de gozar numa dor paralisante: o pior exerce um fascínio, isso causa gozo no sofrimento. O ser humano é, por estrutura, alguém que sente prazer no sofrimento. A dor psíquica é a sua verdadeira dor. Ela pode ser vivida na cabeça e no corpo. Os transtornos sintomáticos, isso que desequilibra, quando não são traduzidos em boas palavras, eles próprios falam através do corpo, através de diversos tipos de disfunções dos organismo.

O sujeito, ao falar, pode se escutar naquilo que está dizendo, encontrar as razões de suas angústias, seu mal-estar, suas inibições, sentir-se mais livre em suas emoções.

Mas isso pode ser diferente, o sujeito pode acreditar que ele próprio não é obrigado a carregar, nos seus ombros, o peso dos erros dos pais, da história de seus antepassados. Ele pode escolher o melhor, deixando de lado o pior, traindo uma herança maldita. Se ele se propõe realmente a mudar as coisas como elas são, no sentido de conquistar um pouco de liberdade, de escolher um novo caminho a seguir, ele vai acreditar: sim, é possível inventar uma nova maneira de ser!

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