N.E.: Para quem não sabe André Delacerda escreve ficção e em uma edição especial para o Diário do Rio escreverá sobre a história da família Oliveiras Tejo que vem para o Rio de Janeiro com a Família Real e até os dias de hoje participou dos principais momentos de nossa cidade. Leia os outros capítulos.

 

Passaram-se dois dias e Dom Manuel tentou falar com D. João como fazia sempre em terras lusitanas. Mas em terras cariocas, ainda em meio a tumultuada instalação da sede do reino no Rio de Janeiro, as coisas não estavam tão fáceis como antes, era uma fila interminável de gente querendo ver e falar com o rei. Tudo era novidade, sem falar naquele clima momesco que insistia em ficar pelas ruas da cidade dia e noite, noite e dia, sem parar. Até que Dom Manuel conseguiu falar com o conselheiro Alferes Boa Nova, amigo dos tempos de visitas palacianas em Lisboa e que por sorte estava entrando no prédio do Paço.

– Dom Manuel que honra encontrá-lo neste sitio.

Dizia o conselheiro.

– Gostaria falar com Vossa Alteza sobre um facto que me aconteceu na chegada.

Falou o patriarca dos Oliveiras Tejo.

– Veio informar ao Rei que irá abrir uma filial da sua Quinta de Oliveiras aqui na nova sede do reino.

Falou Boa Nova.

– Antes fosse.

Falou desconsolado D. Manuel.

– O que houve meu nobre?

– Poderia me adiantar o ocorrido?

Perguntou o conselheiro.

– Sim, pois pois.

– Uma caixa com minhas principais economias, títulos bancários, moedas, sumiu de um dos navios da esquadra portuguesa que nos trouxe. Agora estou sem dinheiro para empreender negócios.

Explicou Oliveiras Tejo.

– É uma tragédia!

Exclamou o conselheiro, continuando.

– Façamos assim.

– Me procure em três dias. Hoje logo mais, quando essa gente enlouquecida se for deste palacete conversarei com D. João. Certamente ele lhe será justo, já que sempre lhe forneceu as melhores oliveiras e seus óleos. Sem falar no apreço que ele tem por vossa pessoa e suas contribuições para a corte.

– Sim, sim.

– Obrigado por sua ajuda, conselheiro Boa Nova.

D. Manuel e Camargo se despedem do conselheiro que some em meio aquela multidão que cheirava a perfume e cheiros mais fortes, devido ao suor provocado pelo calor que fazia em terras cariocas. Camargo resmungou.

– Sei que antes da chegada do Rei fizeram algumas reformas na cidade. O Conde Arcos mandou alguns barracos ao chão, ruas foram higienizadas, valas fechadas.

– O cheiro já foi muito pior, mas agora esse perfume se misturando ao suor desta gente que não gosta tanto de banho, me remete aos tempos em que os cheiros das ruas, dos escravos, das almas que se recusam a tomar banho era pior.

Um sorriso pelo comentário nasce na triste face de D. Manuel.

– Nessas horas tenho que elogiar os índios, afinal aqueles selvagens sempre tomam banhos, e estão sem nenhum cheiro.

Finalizava Camargo Candeias.

Dias se passam e Dom Manuel não perde a face preocupada pela não visualização de um futuro digno no Rio de Janeiro. Porém, um fato irá acontecer e poderá dar uma reviravolta na vida dos Oliveiras Tejo.

Uma certa manhã, cerca de duas semanas depois de ter encontrado o conselheiro Boa Nova, estava Oliveiras Tejo em frente a casa que dividia com a família de Candeias. Foi com os olhos cheios de esperança que viu surgir a sua frente um mensageiro de D. João.

– Venho em nome de D. João, trazer-lhe esta mensagem.

O rapaz entrega a carta com o timbre real a Dom Manuel que a ler quase com os olhos marejando.

– Sim, sim. Diga que estarei no palácio ainda hoje.

Afirma o português com voz tremula de emoção.

Ele dirige-se ao segundo andar do sobrado e vai contar as novidades a Dona Mariana, que se encontrava cuidado dos cabelos do pequeno Malaquias, que estava cheio de piolhos; surto que atacou boa parte da corte durante a viagem e a chegada ao Rio, inclusive corria um boate no reino, que Carlota Joaquina, usava ultimamente panos na cabeça, não por que achou lindo os panos que as escravos usavam, mas sim para esconder a ausência de cabelo, por conta dos ataques de piolhos que a fizeram raspar a cabeça.

– Minha esposa. Tenho boas novidades.

– Vamos voltar a Portugal?

Pergunta a mulher.

– Não, ainda não. É o que mais queria.

Diz Oliveiras Tejo, continuando.

– D. João irá me receber ainda hoje na sede do governo. Vamos aguardar o que ele tem a nos dizer sobre o sumiço de nossos valores.

Dona Mariana meio inconformada, volta a catar os piolhos na cabeça do filho.

Dom Manuel, se veste com a melhor roupa, e segue pelas ruas estreitas e tumultuadas pela grande quantidade de pessoas que agora a nova sede do reino comportava.

Eram nobres, vendedores de rua, gente sem o que fazer, os mendigos que durante uma parte do dia se acomodavam no Arco dos Teles e em outras horas vagavam em mendicância pelas ruas da cidade.

Os minutos se passam rapidamente e logo estava Dom Manuel de frente ao Paço, e aquele fila interminável ainda se fazia presente dos que queriam falar com D. João.

Durante o trajeto entre as pessoas que estavam na fila, ele encontra Joaquim Bevilacqua Esperança, um homem que tinha facilidades desde as épocas de Lisboa em acesso ao rei, na verdade era um mecenas e que atuava também com contrabando de artes.

– Meu estimado senhor Dom Manuel, veio falar com D. João?

– É o que pretendo.

Diz o homem.

– Mas com essa fila, acho que foi ficar o dia inteiro aqui.

Afirma Oliveiras Tejo.

– Não seja por isso. Venha comigo.

Convida Joaquim, acenando para o guarda na portaria do palácio que os fazem passar na frente de todos os demais. Com o gesto podia-se ver que o jogo de influencias estava já instituído em terras cariocas, um famoso jeitinho se esboçava.

Oliveiras Tejo, pensa consigo mesmo. Ele um dia vai querer me cobrar esse gesto, conheço a fama de Bevilacqua Esperança. Não é a toa que ele tinha acesso a tudo e a todos na velha Lisboa.

Após transitarem pelos salões do Paço, eles entram em um cômodo, ali o mecenas conversa com um conselheiro, que entra na sala real, e minutos depois volta.

– D. João irá recebê-los senhores.

Diz o conselheiro.

Ao entrarem a sala real, Oliveiras Tejo pode ver o conhecido D. João, com aquele ar bonachão estava ali sentado no trono real, meio que encostado, como se aquilo fosse uma cama.

– Oliveiras, Oliveiras, que fazes aqui.

– Ah! Me recordo!

Exclama a majestade.

– Boa Nova me falou do seu caso.

– Vossa Majestade deve saber que sempre estive ao lado de Vossa Alteza sua mãe, e que sempre servir com o melhor o reino. Mas infelizmente não tenho como fazê-lo aqui. Alguém levou todas minhas economias.

Afirma Dom Manuel.

– É uma lastima. Me roubaram até minha velha franguinha.

Diz com tom debochado D. João para riso de todos.

O rei então passa a mão junto ao queixo e vira-se para o lado, vendo pela janela uma um carregamento de azeite em barris.

– Meu Caro Oliveiras Tejo. Tu levas aquele carregamento de azeite, creio que deve ter pertencido a sua Quinta, leve-o e use-o para começar seus negócios aqui.

Diz D. João em tom decidido.

– Não vai fazer falta a corte, já que a ela pertence?

– Não, não, leve-o compraremos parte do ajeite em suas mãos para ajeitar nossa comida.

– O custo disso deixo nas mãos dos nobres e da gente boa destas terras.

Gargalha com eloqüência D. João.

D. Manuel cumprimento o rei, agradece a Bevilacqua e sai do Paço, sendo acompanhado por mensageiro que informa aos guardas que aquela carroça de azeite pertence a Dom Manuel.

Ele e o carroceiro partem pelas ruas do Rio com certa dificuldade de transito, sendo que alguns minutos depois já estavam de frente a casa onde residia. Ali encontra Candeias de saída, o qual mostra a carga de azeite cedida por D. João.

– Candeias, o que tem atrás destas portas aqui ao lado do seu sobrado.

Pergunta D. Manuel.

– É uma espécie de deposito do meu falecido tio.

– Então poderíamos abrir uma casa de azeites e olivas em sociedade já que vivemos embaixo do mesmo teto.

Afirma D. Manuel.

Candeias que ultimamente estava meio que sem fazer nada, só levando mensagens do Conde dos Arcos, então vice-rei. Fica entusiasmado com a idéias.

As semanas se passam, D. Manuel, Carmargo arrumam e pintam o armazém, agora já não tinha as regalias e empregados da Quinta que tinha em terras lusitanas, era ele quem teria que arrumar tudo, eles tinham a ajuda de Dona Mariana, que trazia sempre algo que comer, e quem confeccionava as roupas da casa comercial que ali se estabeleceria, além do pano bordado que estamparia na porta o símbolo dos Oliveiras Tejo.

Logo a Casa Oliveiras Tejo & Candeias abriria, e encantaria a freguesia da vila com nobres azeites e azeitonas, a clientela começou a crescer, sem falar na ajuda que D. João dava ao comprar parte das mercadorias, com o dinheiro que eles iam fazendo, encomendavam novas mercadorias que vinham de Portugal, assim, passaram a receber também especiarias vindas da Índia, bacalhau, e outros salgados.

Oliveiras Tejo estava feliz pelo sócio, pela nova vida, até Dona Mariana estava conseguindo se recuperar da ausência da filha que falecera na viagem. A esposa de Oliveiras Tejo fazia doces portugueses que eram consumidos facilmente pela nobreza local, ela tinha ajuda de uma escrava, chamada de Danda Yoba, a qual ensinou o fino trato das iguarias portuguesas.

O pequeno Malaquias começava a crescer e logo andaria pelas ruas da cidade com facilidade. Mas parecia nascido ali pela familiaridade com a gente local, com os escravos, e com uma amizade que acabara de fazer em plena rua. A essa época D. Pedro, já fugia do Palácio da Quinta, casa na qual fora mora com a família real, e transitava em meio ao povo com facilidade, driblando todo o aparato real.

Assim se desenhava uma nova história na vida dos Oliveiras Tejo, comerciantes do mais puro azeite em terras cariocas, perpetuando assim, a tradição de família que mantinha nas terras do além mar.

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