...os pais e os filhos!

A ética que nasce no coração da relação entre pais e filhos, é que possa viger uma certa margem de liberdade, que permita uma escolha que não seja forçada.

Isso equivale que os filhos sofram, desde cedo, no mais caro de sua carne, os efeitos de uma lei do desejo, que concerne ao futuro de cada um: limites, discernimento, vigor, persistência. Nem liberdade demais, nem de menos. O tamanho da margem? A palavra do pai será a justa medida.

A palavra do pai, que é passada pela mãe, dirá de uma justeza suportável, pela qual a criança não precisa se acomodar ao conforto, doentio, da vida como ela é. Ela vai pleitear mudanças, pagar o preço do crescimento, trilhar um caminho próprio, distinto da vida de seus pais, poder criar uma nova maneira de viver, aspirar uma vida como ela mesma poderia ser.

A colocação em ato de uma certa margem de liberdade, na educação dos filhos, não pode ser praticado pelo viés de um simples conhecimento. Isso seria um gesto sem vida, gratuito, pedagógico, consciente. A prática da lei do desejo deve vir de dentro, do interior, de uma intimidade essencial, encontro de desejos, o que os levou a um encontro, que fez filhos virem ao mundo.

O gesto de lei que inscreve, na subjetividade dos filhos, os limites do desejo, é algo custa muito caro, pois é nutrido de uma angústia, que advém do desejo inconsciente do pai e da mãe. A angústia é antinômica ao sentimento de culpa. A angústia é o motor que me permite navegar na vida como ela mesma poderia ser. O sentimento de culpa é recuo, covardia moral, é assentir numa passividade, aceitar-se numa nostálgica vida como ela é.

O importante – e é somente isso o que conta na vida -, é que seus filhos possam ser livres para desejar. Que os pais possam criar as condições para que seus filhos possam desejar. Desejar o quê? Isso, em si mesmo, não tem importância alguma. O fundamental é que haja uma insistência no ato de desejar. O desejo é nascido do encontro de um homem e de uma mulher, do pai e da mãe, que é transmitido para os filhos, pelo viés de um vigor que venha de dentro deles, no sentido de aceitar uma boa separação.

Isso se chama vida! Que seus filhos não abram mão de seu desejo, que aprendam a insistir na busca, na procura, que remeta à uma persistência na vida, e que sua libido esteja a serviço de suas escolhas. Que eles caminhem, que consolidem sua posição, mediatizada pela palavra dos pais.

Mais, ainda, que seus filhos se reconheçam e se permitam estar presentes em suas escolhas: do amor, do desejo, do gozo sexual, da profissão. Uma tarefa difícil, mas não impossível, tanto para os pais quanto para os filhos, aprender a gostar daquilo que faz.

Isso, inclusive, é diferente do simples fazer o que gosta. Pois, aí, recairíamos numa zona de conforto, que é própria ao princípio do prazer, que alimenta as alienações impeditivas. Essa maneira de ser se constitui a partir de uma formatação de um rebanho de ovelhas, que se condena a viver imerso num gozo paralisante, que sobrevive à míngua de pequenos apetites, sem nunca alcançar o verdadeiro gosto do viver. Ou seja, vidas travadas, estagnadas, impedidas de viver.

Gostar do que faz é diferente. Implica em estar de acordo com o próprio desejo, que equivale à uma sustentabilidade de maior progresso, na firme proposição de um querer que se desnuda de suas precariedades.

O sujeito quando aprende, desde criança, a gostar do que faz, não se acovarda frente ao seu desejo, pois ele não recua frente às adversidades da vida. Pelo contrário, ele acredita que pode avançar um pouco mais, encontra motivação para nutrir esperanças, numa vida que se renova em seus argumentos.

Médico, Psiquiatra e Psicanalista. Especialização e Mestrado em Psiquiatria (UFRJ); Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Brasília, Rio de Janeiro e Vitória; Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP); Editor-chefe da Companhia de Freud Editora

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