A arte da felicidade, filme italiano
O taxista Sérgio encara reflexões sobre vida e morte

Era uma noite fria com aquele vento gélido que nos faz querer ficar em casa e fechar as janelas quando vi ‘A arte da felicidade’ (L’arte della felicità), um filme italiano extremamente artístic, rico em simbologias e ensinamentos espirituais. Após uma semana cheia de sentimentos e acontecimentos em minha vida, desde lançamento de livro e composição musical ganhando o mundo até problemas com familiares sofrendo, ver uma obra como essa foi ótimo. Em verdade, caiu como uma chuva de sabedoria.

Provocações agulharam meu cérebro e coração ao ver esse filme que fala sobre arte, em especial, essa tal arte da felicidade. No longa-metragem, pelo banco de um taxista com um histórico na música, Sérgio, passam histórias diversas e vidas distintas. No rádio de seu carro, um programa nos faz pensar sobre vários conceitos como carma, a roda das reencarnações, Samsara, e levanta reflexões sobre vida, morte, caminhos e descaminhos.

A direção é de Alessandro Rak. Aliás, foi o filme de estreia dele e venceu o prêmio de Melhor Filme de diretor estreante no London Raindance Film Festival 2013. As coisas acontecem a partir do protagonista Sergio receber uma notícia que lhe afeta consideravelmente. Aos poucos vamos entendendo melhor os motivos. Então o homem vai com seu táxi pela cidade de Nápoles, dando voltas e voltas. A busca dele, por fim, é como a de tantos de nós. Uma procura por entendimento de si mesmo, de encontrar-se. Repetições. Além disso, a necessidade de fazer as pazes com o próprio passado e focar no agora é o que pode permitir um futuro com mais brilho e, quem sabe, a superação de antigos traumas possa cicatrizar velhas feridas e abrir as portas para bons momentos.

Nasceu

Apesar de também resvalar por outras linhas espirituais, como o catolicismo, o filme tem uma pegada maior do budismo, e traz aquele velho ensinamento tão básico, necessário, mas que parece difícil de alcançar: viver no presente. Ainda mais no Brasil onde uma das coisas que mais cresce é essa tal de ansiedade. Essa danada é uma das maiores responsáveis pela depressão. E ansiedade é o que? A mente no futuro inexistente.

Interessante ver esse filme numa semana com jeito de furacão, como tantas tem sido nos últimos loucos tempos de pandemia, medo, confusão, polarização política, intolerância. Como ser feliz num contexto assim?

Nesse percurso pela arte da felicidade no meio do caos ficamos entre uma aura de melancolia e outra de indiferença.

No limiar disso tudo, a espiritualidade, que às vezes vem de mãos dadas com essa coisa mágica chamada fé, pode ser uma força a mais para auxiliar nessa jornada. Lembro agora até de uma frase que um padre diz no filme: “Morreu porque nasceu”. É, padre, não sei se consolou. Perder pessoas queridas faz parecer que estamos num inverno interminável.

Mas acaba, o trem passa e chega em outra estação, na esperança de amores numa primavera de cores. A arte da felicidade talvez seja uma serenidade perante os desafios, a certeza de que tudo tem fim e conseguir lidar com isso, pois se o tempo ruim há de terminar, o bom também se vai, nesse ciclo contínuo. No fim das contas, nessa estrada, é você que está no volante.

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