Papo de Talarico: A memória de um tailandês em Botafogo

Preso num outro mundo, ouvi melhor e percebi as ilusões que aconteciam logo ali

Memoria de Apichatpong Weerasethakul
Botafogo por trás das grades (foto: Alvaro Tallarico)

Quando saí comecei a escutar tudo melhor do que nunca. Cada som, cada passo. As conversas, mesmo que não entendesse nada. Palavras ao vento, ao léu, mas que buscavam meus ouvidos como nunca antes. Por detrás das grades ouvia as buzinas e o barulho das rodas sobre o asfalto quente sob o sol escaldante do inverno carioca. Isso aconteceu após duas horas e dezesseis minutos de uma experiência única.

Vi Tilda Swinton percorrendo a Colômbia, mas, ao mesmo tempo, um mundo meio sobrenatural com uma surpresa de ficção científica enquanto ficava perturbada com um som que só ela escutava e praticamente lhe criava uma obsessão. Estaria ficando louca?

Em certo momento, vai a uma médica e até pede remédios para dormir. A doutora, dotada de uma serenidade apaixonante, diz que não é boa ideia, pois atrapalharia sua relação com a vida. O remédio anestesiaria e as coisas não seriam tão vívidas. Ainda entrega um folheto falando de Jesus.

Apichatpong Weerasethakul

Essa coisa toda aí, e muito mais, veio da cabeça do tailandês Apichatpong Weerasethakul, que escreveu e dirigiu o filme Memoria, o qual assisti numa sessão para imprensa no maravilhoso e resistente cinema Estação Botafogo, na tradicional rua Voluntários da Pátria. Um longa-metragem lento, cujo tempo parece ir contra a socideade atual e seu entretenimento veloz e fugaz. Uma película que contrasta com os tiktoks e vídeos efêmeros da modernidade.

É filme para ver no cinema, ou seja, fechado numa sala escura onde todo seu foco está naquela tela gigante, para que possa aproveitar a imersão. Esse é um dos maiores sabores da sétima arte e, aqui, Apichatpong Weerasethakul usa com maestria. Pode ser que o filme dê sono em algum momento, mas a vida não dá também às vezes? Em certo momento, torci para o filme acabar, já estava cansado, mas depois que saí e comecei a ter aquela sequência de sensações profundas, entendi a inteligência do artista. Foi como se eu estivesse fora do mundo por alguns instantes. Fiquei ali antes da bilheteria do cinema, vendo o fluxo da vida lá fora. Entendi melhor o conceito budista de maya, a ilusão que constituiria a natureza do universo, esse lugar que você e eu estamos agora. Pareceu que havia feito uma meditação profunda.

Enfim, naquele início de tarde, a Memoria de um tailandês se tornou inesquecível e me fez sentir incrível. Pensei em Buda, pensei em Bauman, pensei na vida e segui meus passos, amando mais a arte e seu gosto agridoce.

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