Crônica sobre gentileza
Arte salva (foto: Alvaro Tallarico)

Vejo muitas pessoas se perguntando como ajudar o próximo nesse momento tão estranho de pandemia. Nessa jornada, descobri uma forma. Uma amiga essa semana me falou de sua vontade de mudar o seu redor, atingir pessoas positivamente. Todavia, não sabia como. Falei que poderia ser mais simples do que imaginamos. Claro, citei que há projetos distintos por aí afora, cada um com um propósito, como o Pretas Ruas, da Pamella Lessa, que busca oportunidades para pessoas negras e auxilia os moradores de rua nessa hora drástica. Mas, essa foi a missão que ela assumiu, foi o jeito que descobriu.

Falei para essa amiga que sentia a sensação de impotência corroendo seu peito que quando a gente se melhora como ser humano, ou cada pequeno gesto no cotidiano, como um bom dia e o esforço da boa educação, podem fazer diferenças grandes que não temos a mínima noção.

Um bom exemplo de algo que une gentileza, simplicidade e arte é o “Histórias por Telefone”, projeto idealizado por Pedro Gerolimich, da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa. Começou voltado para idosos, mas foi se ampliando. Veja só, estou completamente sozinho no momento (tirando um manjericão amigo e os insetos), buscando manter o isolamento. Tenho a possibilidade de realizar alguns trabalhos de casa, o que me facilita. Contudo, desde semana passada, fui um dos agraciados por esse projeto. A voluntária Mônica Motta me ligou em um dia melancólico quando eu olhava pela janela saudoso da liberdade que o coronavírus nos tirou. Disse que viu meu nome na lista e me ofereceu uma poesia como presente. Logicamente, aceitei.

Mônica então, com um sorriso que eu conseguia escutar, declamou um texto de Bráulio Bessa. Aquela arte alegrou meu dia. Combinamos que ela poderia ligar dia sim, dia não, no mesmo horário. E assim está sendo. Ela já me disse uma de Mário Quintana, sobre tempo e vida, que me deixou reflexivo, num domingo esquecido. Hoje, me ligou com sua boa energia tradicional e, com carinho aconchegante, trouxe Cora Coralina para minha companhia. “Saber Viver” era o nome do poema.

Essa literatura maravilhosa trouxe as respostas que eu precisava, sempre um recado divino. Na última, Cora Coralina diz que muitas vezes basta ser o colo que acolhe, o braço que envolve, a palavra que conforta. E segue nessa toada emocionante, promovendo o amor ao próximo. Ou seja, na curva da tristeza, a solução pode ser a simples arte – da gentileza.

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