escadaria selaron poesia no rio de janeiro por alvaro tallarico
foto: Alvaro Tallarico

No Rio de Janeiro cabe poesia? Há pouco tempo coloquei uma frase que brotou em minha fértil imaginação nas minhas redes sociais: “A poesia é a arte de prescrever remédios para a alma”. Uma médica comentou: “E que remédio essencial estamos precisando”. O rápido diálogo virtual acionou meu mecanismo de reflexões. O Rio não teve janeiro, não teve verão, não teve alegria. Pode ainda ter poesia?

Aliás, na sociedade em que vivemos, onde os valores estão ao contrário, para que serve um poeta? “Trago verdades”, me respondeu uma voz vinda não sei de onde, nem sei por qual motivo. “Espírito Santo, é você?”, respondi, esperançoso. Uma pomba branca passou voando na frente da minha janela. Mas deve ter sido coincidência. Era somente algo que li em algum lugar e que saltava nos meandros da minha mente.

Entretanto, nessa pandemia que parece interminável, quantas vezes a arte lhe ajudou? Um filme, uma série, um livro, uma pintura, uma poesia. Quantas vezes uma dessas armas do bem ocupou sua cabeça e salvou de um momento ruim? Trouxe sorrisos e emoções diversas? Distraiu da depressão que crescia.

Entretanto, resta minha dúvida. Difícil ser poeta durante uma pandemia. É tanto sofrimento, tanta morte, uma aura de desespero, de angustia, de desistência.

Sobre a pergunta que abre o texto, os malandros, os bandidos e os gananciosos que dominam a cidade (o país?) dirão que não.

Mas então minha reflexão vai para outro local. Hoje consegui um tempo para visitar um amigo o qual não via há anos, que estudou comigo numa escola estadual em São Cristóvão no ensino médio. Descobri por uma rede social que ele havia se acidentado. O carro ficou todo destruído. É difícil acreditar que ele sobreviveu. Fui lá em Irajá para vê-lo. Subi os quatro lances de escada e lá estava, alguns quilos mais pesado (e olha que tinha perdido 10 quilos depois do acidente). Creio que fazia uns 6 anos que não via o camarada. O tempo passa de tal forma que assusta. Nem percebi. Parece que foi ontem que estávamos no grêmio da escola discutindo melhorias.

Descobri que a mulher dele perdeu a mãe para a Covid há dois meses. Além disso, acabaram de descobrir que a filha mais nova de 3 anos tem um espectro de autismo e estão aprendendo a lidar com isso. Ele está com o braço quebrado, muitas escoriações, sobreviveu a uma hemorragia cerebral.

Sentei e fiquei como ouvinte, com toda atenção e carinho para a sequência de desafios que enfrentaram e venceram. E virão mais, claro. Saibam que estou aqui para o que precisar. Mesmo que tantas bombas insistam em estourar.

Saí de lá feliz por rever um amigo o qual eu poderia nunca mais visualizar, pois a morte por pouco não lhe alcançou. Em seguida, recebi um áudio de uma amiga, ex-namorada, agradecendo os parabéns que dei pelo aniversário e elogiando uma poesia que coloquei em outra rede social. Disse que não era qualquer um que poderia ser poeta e o mundo estaria precisando.

Como fazer poesia na tragédia? Ter força para fazer comédia?

Mas como não criar um poema? Tirar da forca o problema?

Abrir a angústia num texto perdido? Desabafar o acontecido?

Se o que sei é escrever, o que me resta é torcer…

Para que quem sabe alguém encontre acalanto

Nessa vida cuja face grita um eterno pranto

Talvez até o escrito possa se tornar oração

Na boca de quem tem compaixão

Lábios possam proferir perdão

E um temporal de compreensão

Senhor, na aridez do deserto urbano

Não deixe que eu seja mundano

Nunca cesse minha fé de acreditar

No poder da arte em transformar.

Amém.

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