Papo de Talarico: O dia em que ouvi o agouro do corvo

Sonhos e heróis na atmosfera gótica de uma melancolia

Agouro do Corvo
Esqueleto de barco em praia uruguaia (foto: Alvaro Tallarico)

Ainda lembro da primeira vez que li Edgar Allan Poe. Viajei por um mundo escuro e assustador; transcendentalmente gótico. Aquele corvo… Sonhei com um corvo há pouco tempo, logo lembrei do renomado escritor. Ele aparecia na janela, gigante. Se fosse pequeno eu teria ficado com medo. Mas do tamanho que era, fiquei foi todo arrepiado. Pelo menos no sonho. Assim que acordei tomei um banho, quase pedindo para que o corvo escorresse pelo ralo. Seria o sinal de algo estranho que surgiria?

Tive até vontade de rezar e procurei um lado positivo para aparição daquela ave no meu mundo onírico. Pesquisei na internet e encontrei São Bento, um monge que virou santo. O homem foi salvo de comer um pão envenenado por um corvo. Por isso, em suas imagens, está lá a ave, com um pão na boca. Será que Edgar Allan Poe sabia algo sobre isso quando resolveu escrever suas famosas obras?

Nos anos 90, o filho de Bruce Lee, Brandon Lee, foi o ator escolhido para viver o herói dos quadrinhos chamado “O Corvo”. Durante as gravações, em uma das cenas em que recebe vários tiros, uma das munições era de verdade e atingiu seu abdômen. Brandon faleceu. Como um garoto que cresceu nos anos 90, tal fato foi algo que me marcou. O filme, aliás, virou cult. Até hoje a morte Brandon Lee reverbera. Há planos de fazerem outro filme. Alguém terá coragem?

A atmosfera gótica criada por Edgar Allan Poe influenciaria o mundo para sempre, assim como esse pobre cronista. Acabo por sentir falta de Lenore, sem nunca tê-la conhecido. E meus olhos marejam a cada vez que leio o poema que tem seu nome no título. O peso da melancolia está ali presente. Sempre fiquei aguardando um novo poema de Allan Poe, onde Lenore viria em forma de corvo e se transformaria em um anjo com seus cachos louros. Não, ele nunca escreveria um desses. Quem sabe então eu possa escrever um dia?

Por via das dúvidas, se precisar, chamo São Bento, e peço que abençoe a alma desse escritor tão inspirador, do Brandon Lee e todos que precisarem. Agora, sonhar com corvo… nunca mais. Nunca mais.

*crônica anteriormente publicada na antologia Crocitar de Lenore (disponível gratuitamente)

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