Papo de Talarico: O primeiro passo do mochileiro

Bons ares adentraram os pulmões do cronista e plantaram a semente do mundo

Mochileiro

Quando eu era mais novo, não sei se é impressão minha, mas as pessoas não se preocupavam muito em viajar. Meus pais pouco ligavam para isso, os tios também. Digo para longe. Porque viagens curtas eram comuns. Até a Região dos Lagos, por exemplo. Uma tia tinha uma casa em Jaconé e a família tinha o costume de ir por lá no carnaval e outras datas. Tenho algumas lembranças de infância. Mas, no geral, meus pais eram caseiros e seguros, sempre economizando, nada de comer fora ou viagens.

Cresci, e tive uma namorada durante anos. Demos um tempo no meio disso tudo. Conheci outra pessoa logo depois, tive um encantamento, e um namorico. Ela fez diferente. Mochilou. Foi para o Mato Grosso do Sul, pegou o famigerado trem da morte na Bolívia e saiu pela América Latina.

No ano seguinte, após um carnaval, voltamos a sair e a namorar. Aí então ela plantou a semente do mochilão em mim. A gente antes viajava para Cabo Frio, Arraial do Cabo, às vezes, para outros estados nas promoções de passagem. Mas para fora do Brasil, nem pensar, afinal, devia ser caro. Ela ainda veio com a ideia de ficar em hostel. Ah, nem pensar. Dormir com maior galera no quarto, e o conforto? Que troço era esse de mochileiro?

Até que topei. Fomos para Buenos Aires. Uma semana. Um hostel, mas um quarto para casal. Antes, tirei passaporte, mesmo não precisando, por causa do acordo do Mercosul. Na Argentina recebi meu primeiro carimbo naquele documento. Senti algo diferente, sem entender.

Estímulos

Ela fez o roteiro da viagem e saímos pelas ruas. Todos falavam espanhol e isso pedia um esforço de entendimento. Tudo desconhecido e em outra língua. Isso faz com que o cérebro funcione a mil. Aos poucos descobri que tal sensação era extremamente viciante. A mente trabalhando incessantemente para resolver as coisas, achar locais, coisas, entender e ser entendido. Fomos no bairro de San Telmo, numa feira saborosa. Passamos por Palermo, com tudo bonito e ajeitado. Tomei cervejas que não vinham geladas. Depois aprendi que tinha que pedir “fria”. Outra cultura. Eles não se preocupam muito com isso de cerveja estupidamente gelada. Ah, lembro também de Puerto Madero. Um porto que foi restaurado e tem edifícios de tijolos vermelhos reformados com várias churrascarias, restaurantes e boates. Fui em uma e as pessoas fumavam loucamente. Saí me sentindo como um cinzeiro.

Na época, acompanhava futebol e visitei o Estádio La Bombonera, famosíssimo, do clube Boca Juniors. Apesar de simpatizar mais com o River Plate, cujo campo era mais longe. Não fui durante um jogo, mas visitei. Gostei mais do Caminito, um tipo de rua que mais parece um museu a céu aberto no bairro La Boca. Casas coloridas, arte e lugares para comer.

Voltei maravilhado para o Rio de Janeiro, fazendo comparações. Vendo o que funcionava melhor lá, o que era melhor aqui, e cheio de vontade de sair pelo mundo novamente. Acabei conseguindo, claro. No final das contas, com todos os seus problemas, não encontrei lugar melhor do que o Rio de Janeiro, mas a graça de sair por aí, não foi para ver o que era melhor ou pior. Bom foi aprender sobre as diferenças culturais que existem no mundo e ampliar a capacidade de empatia pelo próximo. Cada um tem sua viagem específica desde que nasce.

Depois dos hostels, e de quartos com até 16 pessoas, tomei gosto por acampar, e numa outra vez, no Parque Tayrona, na Colômbia, passei a noite num grande mosquiteiro cheio de redes com um casaco e segurando a mochila. Dei a volta na Ilha Grande andando por 8 dias, a cada dia numa praia. Virei mochileiro, fiquei na casa de alguns viajantes, recebi tantos outros. Sigo com um prazer imenso de mostrar minha cidade e ver pelos olhos dos novos amigos, a surpresa com nossos mirantes e museus. Além disso, tem os rostos impressionados com os sambas cheios e a música que permeia todo lugar. Enfim, nossa alegria é a maior viagem.

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