Para Maxwell, país não permite leituras "convencionais"

Da série de artigos, reportagens e entrevistas que a Folha de São Paulo fez em 26 de novembro de 2007 sobre os 200 anos da vinda da Família Real de Portugal para o Brasil. Acompanhe o índice aqui.

Originalmente publicado aqui.

Para Maxwell, país não permite leituras "convencionais"

MARCOS STRECKER
DA REDAÇÃO

Foi um dos momentos fundadores mais decisivos na formação do Brasil", diz o brasilianista Kenneth Maxwell, diretor do Programa de Estudos Brasileiros na Universidade Harvard (EUA), sobre a chegada da família real, há 200 anos. Para o historiador britânico, esse acontecimento foi essencial para o desenvolvimento do Brasil no século 19 e para diferenciar a história brasileira em relação à América espanhola. Para ele, o movimento de independência da década de 1820 "não aconteceu no Brasil, mas em Portugal".

Para o autor de "A Devassa da Devassa" (Paz e Terra), que está em São Paulo a convite da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, o interesse atual pelas grandes figuras históricas não é um fenômeno brasileiro. Também nos EUA, segundo ele, a historiografia biográfica está em alta. 

FOLHA – A chegada da família real em 1808 foi um momento fundador para o país?

KENNETH MAXWELL – Sim. Na minha opinião, foi um dos momentos fundadores mais decisivos na formação do Brasil. Principalmente porque, com a chegada de uma corte européia na América, algo que não aconteceu em nenhum outro lugar, houve uma transferência de legitimidade para um governo localizado numa colônia na América, transformado-o assim, imediatamente, no centro de um império global, como de fato o Brasil era depois de 1808.

FOLHA – Quais são os principais pontos positivos e negativos da transferência da corte?

MAXWELL – O ponto mais positivo foi que o Brasil não enfrentou uma alienação entre a monarquia e o povo, no sentido de que houve um período de afastamento total entre a monarquia espanhola e a América espanhola, depois das invasões napoleônicas.

A América espanhola ficou sem ligação com a metrópole no sentido de governança, foi necessário inventar novas formas de representação. Em muitas partes isso provocou grandes problemas de legitimidade e guerras internas sangrentas por mais de 20 anos, com grande destruição de infra-estrutura, de instituições e de riquezas.

No Brasil, em contraste, houve uma continuidade. As instituições novas foram criadas pela própria coroa portuguesa, e a maioria delas foi estabelecida no Rio de Janeiro, que assim assumiu um papel centralizador dentro de uma América portuguesa que antes era muito fragmentada no sentido administrativo. Houve resistência a isso, claro, principalmente no Nordeste (Pernambuco, por exemplo). Mas, no fim, o poder central foi mantido.

Por outro lado, essa institucionalização no Brasil de um regime monárquico, arcaico, europeu, teve conseqüências negativas para o desenvolvimento do país, ao trazer da Europa uma aristocracia e burocracia parasíticas, corruptas e ineficientes, além de ambições dinásticas e expansionistas.

De fato, acho que uma das causas do fracasso da idéia de um império luso-brasileiro baseado no Brasil foi a pretensão imperialista na América do Sul do regime no Rio de Janeiro, que provocou guerras no sul -principalmente na região onde o Uruguai está agora estabelecido- e também tentativas de expansão ao norte, na Guiana, contra os franceses.

No norte, isso foi devido a pressões britânicas, em conseqüência do conflito com Napoleão na Europa. No sul foi por conseqüência de ambições de Carlota Joaquina para restabelecer a presença espanhola no rio da Prata, com ela como chefe. Isso trouxe grandes danos financeiros para o regime de dom João 6º.

FOLHA – O que explica a atenção que temas ligados à família real estão despertando? Livros como "1808" (ed. Planeta), do jornalista Laurentino Gomes, e a biografia "Dom Pedro 2º" (Cia. das Letras), do historiador José Murilo de Carvalho, viraram fenômenos editoriais…

MAXWELL – São bons livros, bem escritos, e um reflexo do interesse recente do público brasileiro por sua própria história. Mas também fazem parte de um fenômeno global, em que há um novo florescimento de uma historiografia biográfica. Por exemplo, nos EUA há neste momento um enorme interesse em biografias dos fundadores da República americana. Muitos são best-sellers.

A problemática do monarquismo e a maneira com o reinado de dom Pedro 2º funcionou na prática são os assuntos principais dos muitos trabalhos de José Murilo de Carvalho e de Lilia Moritz Schwarcz. A contraparte disso, também importantíssima, está focalizada na importância dos regionalismos brasileiros, com contribuições fundamentais de Evaldo Cabral de Mello.

FOLHA – Estamos vivendo um momento de novas interpretações em relação ao período imperial?

MAXWELL – A minha visão é um pouco mais globalizada, com foco limitado no período de 1808 até 1820. A razão é que o Brasil tentou na época ser o centro do império luso-brasileiro e devemos definir um pouco melhor como esse império foi construído e as causas de sua derrota.

Por exemplo, na minha opinião, o movimento de independência da década de 1820 não aconteceu no Brasil, mas em Portugal. Foram os portugueses que não quiseram ser dominados por uma monarquia baseada na América.

Com a rejeição da dominação brasileira, eles atraíram muitos dos problemas de fragmentação, guerras civis e descontinuidade que são parecidos com aqueles que estavam acontecendo na América espanhola.

É sempre importante, ao pensar a história do Brasil, considerar que ela não se encaixa em interpretações convencionais. É sempre necessário pensar um pouco de forma contrafactual, porque a história brasileira não segue a mesma trajetória de outras histórias das Américas. O rei estava aqui, a revolução liberal estava lá. A continuidade estava aqui, a descontinuidade estava lá.

Acho que isto explica muito das coisas que aconteceram depois no Brasil, no século 19.