Qual seu conceito de família? Fico pensando se essa pergunta fosse feita há algumas décadas atrás, talvez teríamos respostas mais enquadradas em um modelo padronizado, refletindo um estereótipo  que hoje além de não ser o único, nem de perto representa mais o ideal.

E por que não seria o ideal? Porque ter um modelo exclusivo de família como ideal é a forma mais preconceituosa que poderíamos lidar com aquilo que deve ser a base de todos os relacionamentos – os laços de afeto e amor.

Minha mãe e meu pai tiveram um único casamento, estão juntos há cerca de quarenta anos, assim como tios e tias daquela geração e sem entrar no mérito da qualidade das relações, o fato é que de algumas décadas para cá, os casamentos tem durado cada vez menos. Segundo o IBGE em 2009, o tempo médio entre a data do casamento e a data do divórcio era de 17,5 anos e, em 2019, essa média caiu para 13,8 anos, em apenas dez anos de diferença podemos observar uma significativa redução da duração dos casamentos.

A realidade é que hoje em dia, a importância que se dava ao casamento tradicional deixou de existir na forma como era, já não há mais uma pressão, como havia antigamente, para que os casamentos durassem para sempre. ?Temos uma grande variedade de composições familiares, homens e mulheres que casam ou moram juntos e tem ou não filhos, separam-se, alguns casando-se novamente; casais homoafetivos vivendo juntos ou casando-se e adotando filhos; temos mulheres ou homens cuidando de seus filhos sozinhos ou junto à parentes como avós, tios, dentre outras inúmeras configurações.

Separações e novos arranjos de famílias são cada vez mais comuns e as figuras tradicionais de pais e mães cedem espaço a novas pessoas que entram para as relações familiares, podendo ter até o mesmo peso na relação de afeto e cuidado das crianças e quando por ventura essas relações amorosas se findam, ao invés de uma ruptura total no âmbito familiar, podem se formar daí novos núcleos familiares, nem sempre balizados pela via sanguínea,  como é o caso de ex-padrastos/madrastas.

Mas, embora essas transformações tenham já se instaurado em nossa sociedade, o preconceito ainda é reinante e assustador, tente uma simples pesquisa em mecanismos de busca, como Google e Youtube sobre a palavra padrasto e verá que temas como pornografia e violência lideram todos os resultados!

As relações afetivas nesse aspecto ainda não possuem o respaldo que deveriam e a nossa legislação demonstra isso também, afinal padrastos e madrastas mesmo convivendo a vida toda com crianças que criam como seus filhos, raramente têm direitos. Infelizmente essa palavra que deveria refletir uma nova fase de amor na vida de uma criança, fica estigmatizada por uma série de preconceitos, como já vi muitas pessoas dizendo, em tom de “brincadeira”, que se fosse boa, não seria “MÁdrasta”.

É fundamental para criação de novos núcleos familiares saudáveis, o entendimento deste novo momento, com suas diferentes composições e para isso é imprescindível a desconstrução de conceitos estigmatizados que regem o imaginário em relação aos padrastos e madrastas.

Certo dia, minha enteada, com toda a sabedoria dos seus quase seis anos de idade perguntou: “-Mamãe, quando você casar com o Tio Pedro, eu vou chamar ele de Padrasto Pedro ou de Tio Pedro mesmo?”.

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