Em 1977, o grêmio recreativo União da Ilha do Governador desfilou com o delicioso samba “Domingo” de Adhemar Vinhaes, Aurinho da Ilha e Ione do Nascimento, fazendo uma ode a esse especial dia da semana. Apesar da qualidade musical do samba, que o elevou à condição de clássico, é inegável a presença de traços ingênuos na letra.

O problema presente no samba da Ilha é tratar o Domingo com demasiado otimismo, com aquela esperança (aliás, justa) de que a liberdade que desfrutamos como cidadãos e trabalhadores é um fato, um termo óbvio de nossa condição humana. “Há os que vão pra mata/ pra cachoeira/ pro mar/ mas eu que sou do samba/ vou pro terreiro sambar”, dizem os sambistas. Sambar, trilhar a mata e banhar-se no mar ou na cachoeira representam ações de um indivíduo que, por se considerar livre para determinar seu bem, ou seja, aquilo que é próprio de seu desfrute, pensa que faz o que quer.

O Domingo cantado pela União da Ilha é um dia em que se celebram nossas duas formas possíveis de liberdade: a liberdade da vontade (que determina os objetos de interesse e de apetência; e, portanto, que determina o que é ou não é prazer) e a liberdade de ação (que nos concede meios de satisfazer a vontade ou de preservá-la do que não a satisfaz). Por meio da vontade, é possível viver o Domingo da forma como melhor aprouver o gosto de cada um. De livre vontade, esse dia se torna a chance de distração com as “pipas bailando no ar”, de jogar bola, de contemplar “novas cores”, de sentir “mais encanto” com o “Rio colorido pelo sol”, pois “o Domingo é dia de alegria”.

No extremo do otimismo da União da Ilha, temos a fala de Raul Seixas; que, na intenção de fechar o tempo e lançar algumas nuvens pesadas nesse céu azulado que o samba evoca, transforma inteiramente o cenário. Na excelente canção “Ouro de tolo”, o Domingo ganha outra roupagem e outro sentido de liberdade. Com uma voz forçadamente enfadonha, Raul canta as decepções de um indivíduo que deveria estar feliz. Na concepção que restringe o humano às determinações dos valores capitalistas, o indivíduo feliz é aquele materialmente bem-dotado; que “tem um emprego”, que “ganha quatro mil cruzeiros por mês”, que comprou “um Corcel 73”, que conseguiu “morar em Ipanema” e que contribui “com sua parte” para o “belo quadro social”.

Raul nos mostra, “abestalhado”, que todo esforço de alguém que conseguiu vencer na vida, é inútil. A decepção toma forma no desprazer de ter que trabalhar e não realizar os anseios da vontade. A liberdade de ação não vale nada porque a livre vontade perdeu o interesse. O Domingo – que no samba da Ilha é a culminância de um projeto, ou seja, a realização do interesse de quem, durante seis dias na semana, apenas trabalha e se desliga do prazer – torna-se, em Raul Seixas, o sinal evidente do tédio. Para o trabalhador, que deveria se contentar por estar em posse de benesses materiais e por ter atingido um nível de bem-estar e de êxito, o Domingo não é a graça que Deus concedeu ao homem para, contente, “ir com a família ao jardim zoológico dar pipoca aos macacos”; antes, o Domingo se manifesta como a inevitável oportunidade para que o indivíduo se sinta tomado pelo mais profundo (e incompreensível) tédio.

Theodor Adorno e Arthur Schopenhauer nos falam em suas respectivas obras sobre o tédio de maneira singular. Enquanto Schopenhauer intromete o tédio na lista de efeitos de uma vontade cuja liberdade de querer nunca encontra satisfação plena; Adorno libera o tédio do domínio da subjetividade e do livre arbítrio, fazendo-o, ao contrário, se submeter a uma ordem objetiva que ultrapassa o controle da vontade.

Schopenhauer naturaliza o tédio classificando-o como uma decepção da vontade que, supostamente livre para escolher e decidir sobre o que deve lhe agradar e lhe fazer feliz, perde-se na tentação de muitos objetos de desejo e, por isso mesmo, se torna escrava dele. Todavia Adorno torna o tédio um produto, um objetivo da lógica interna da indústria. Cabe ao capitalismo a paternidade do tédio, uma vez que é pelas mãos da mecânica de produção, das regras fixas na jornada de trabalho, que o trabalhador tem direito a desejar algo “diferente” da sua condição fabril. Essa diferença é o lazer, o tempo livre que o homofaber tem para consumir objetos de prazer que o distraiam.

O Domingo é o campo de realização do tempo livre; ocorre no início de um movimento repetitivo de serviços diários; apesar disso, o tempo livre não se concretiza porque a mecânica do trabalho não cessa; desfrutar do lazer é recarregar forças para trabalhar. A faceta de diferença é ilusória. Adorno diz: “o tempo livre segue diretamente o trabalho como sua sombra”. O Domingo é a sombra do labor. Daí o tempo livre que se esperava não é livre; a vontade não determina porsio que ela quer desfrutar.

O lazer do Domingo não é feito para esquecer a segunda-feira, como crê o samba da União da Ilha. Os vingadores da Marvel no cinema, a maratona de séries da Netflix, a playlist “selecionada” no Spotfy– tudo age como trabalho: se repete em sua fórmula, mantém um padrão definido maquinalmente pela indústria, encerra a subjetividade da vontade em um gosto pré-organizado por um raciocínio que visa expandir seu domínio. A indústria recriou o Domingo para nos alimentar com seus produtos de lazer; desse banquete de “opções” nos empapuçamos por consumo metódico; por isso, o Domingo capitalista não é a liberdade que Deus licenciou para que fizéssemos bom uso do tempo.

O Domingo é a jornada do tédio e não da liberdade, nem da felicidade; cansamo-nos da obrigação capitalista de sermos livres na aparência e felizes por mecanicismo; bem como cansamo-nos da oferta de tantos produtos monótonos que tonteiam o poder de escolha; o controle remoto da TV não encontra sossego em nossas mãos, como nosso automatismo digital não diferencia as pseudo espontâneas postagens do Instagram.

A “liberdade” de escolha que a indústria cultural nos propagandeia, o desfrutar do Domingo como um “privilégio”,repete-se, cansa – todo produto dá no mesmo.  Tal escolha não é nossa e sim de uma vontade mecânica orientada para nos esgotar. Temos tudo e decidimos nada. Estamos presos ao que o raciocínio capitalista nos preparou. Somo esgotados durante seis dias da semana, sem usufruir de liberdade; porque logo no primeiro dia caímos na arapuca que é o tédio disfarçado de entretenimento.

2 COMENTÁRIOS

  1. Não há nada tão desestimulante quanto o tédio.
    Não há nada tão estimulante quanto o ócio.
    Domingo não é um dia de descanso, mas uma interrupção abrupta da atividade.
    Domingo, não dá vontade de nada, não parece com nada.
    Domingo é um dia gorado…
    Sem o domingo, a semana seria mais rápida e trepidante…
    Domingo é inútil… Suas forças se esvaem, enquanto você atônito, apenas atesta o acontecido…
    O domingo é seu dono… A escravidão compulsória ao tédio.
    Tudo o que se fizer no domingo pertencerá a ele, nunca a você…
    Domingo é o feitor que impinge à inatividade.
    Aproveitar o domingo? Como?
    Nem o vinho, a sardinha, a cerveja ou o churrasco…
    Deixe tudo para sexta ou sábado… Ou quiçá, para as férias…
    Enfim, para quando você for dono do seu tempo…
    Nunca dê este gostinho a nenhum domingo…

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