Papo de Talarico: A Praia do Sono e o despertar

Numa viagem inspirada em aventuras, um chamado para o lar

Praia do Sono
Vista da Praia do Sono (foto: Alvaro Tallarico)

Qual a hora em que cansa? Terminei de ler o livro “Sete Anos no Tibet”, do austríaco Heinrich Harrer no dia 31 de dezembro de 2021, um pouco antes da virada do ano. O filme inspirado nessa obra, de 1997, é uma maravilha, tem o Brad Pitt como protagonista e ensina muito sobre ego. O livro segue um outro tom, mais de visão cultural, e é cheio de detalhes da viagem desse homem que fugiu de uma prisão na Índia (algumas vezes) para chegar no Tibet e virar amigo do jovem Dalai Lama.

A questão foi que ler esse livro me trouxe vontade de viajar novamente. Alguns dias depois, fui com uns primos para a Praia do Sono, que faz parte da esplêndida Reserva Ecológica Estadual da Juatinga, em Paraty. Em 2015, havia visitado esse lugar e ficara maravilhado. Peguei a barraca de camping empoeirada, tirei o mochilão do armário e o saco de dormir.

Na Praia do Sono só é possível chegar de duas maneiras: trilha ou barco. Por isso a vizinha, Trindade, é muito mais famosa. Quando conheci nas primeiras vezes, fui de trilha, contudo, meus primos não se animaram. De barco foi bem rápido e fácil mesmo. Fiquei no camping Arenaeus, do Xandy e da Ju. Casal simpático, local bem estruturado, o melhor camping em que já me hospedei. Ainda tem uns chalés por lá e uma cozinha comunitária arrumada.

Bossa Roça

A primeira noite teve show no Bar Caiçara. Eu sonhava com um forró, mas quem tocou foi o Bossa Roça, uma dupla de mineiros de Três Corações que cantavam todo tipo de música, de Ventania até sertanejo, passando por pagode e o Rappa. Os caras ainda eram engraçados, fazendo piada o tempo todo.

O cansaço venceu e não fiquei até o fim. No decorrer dos dias, a chuva apareceu mais do que o sol. Uma doce manhã de céu aberto ainda nos permitiu ir em Antigos e Antiguinhos, praias próximas, lindas e desertas. Ainda chegamos na Cachoeira das Galhetas. A chuva chegou conosco. Mergulhei sem medo, fui até a ducha forte e natural, enquanto meu primo mais velho, corretamente, se preocupava com a possibilidade de tromba d’água. Seguimos até Ponta Negra logo depois, onde almoçamos. A chuva apertou, o que obrigou as pessoas a ficarem mais próximas. Ali, um rapaz tocava violão com três amigos. Levantei, desandei a cantar com eles e unimos nossos grupos. Tinha gente de Goiás, Mogi Mirim, Embú das Artes, Rio de Janeiro, Porto Alegre. Dancei forró com uma Juliana. Em seguida, o rapaz do interior de São Paulo, André, pegou o violão e cantou “A Dois Passos do Paraíso”, da Blitz.

Fomos embora de barco, de Ponta Negra até a Praia do Sono, antes do cair da noite. André voltou sozinho de trilha. O mar estava agitado e perigoso. Orei durante a primeira parte. Quando finalmente avistei o Sono, comecei uma narração animada “bem amigos, mais um dia de vida”. As gargalhadas sumiram sob o barulho do mar.

Os dias seguintes foram de chuva. A cobertura de minha barraca quase alçou voo porque não prendi direito. Tivemos uma noite agradável com pizza e outras pessoas que apareceram na cozinha. A esperança era do retorno do sol.

Não deu. Meus primos e eu fomos embora de barco, debaixo de chuva. O piloto ficou um tempo esperando o momento certo para sair com a pequena embarcação. A tensão de meu primo mais velho era clara. O mais novo se divertia, e eu, narrava novamente. Cada onda era como um gol. Entretanto, quando cheguei em terra firme, vi um vídeo sobre a tragédia em Capitólio, com a queda de uma rocha em cima de duas embarcações. Na estrada de volta, acidentes. Ao chegar em meu lar, horas depois, deitei em minha cama com um sorriso único. Não lembrava de ter sentido tanta alegria por chegar em casa. Foi a melhor parte da viagem.

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