Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas - Foto Cleomir Tavares/Diário do Rio

O Rio de Janeiro, historicamente, abriga pessoas de muitos locais do mundo. Não é diferente com gente do próprio Brasil. Há uma relação muito estreita com o Nordeste, na cultura, no trabalho, nas artes. Na vida do fluminense existe muito das tradições nordestinas e, de certa forma, vice e versa.

“Desde o começo do século XX havia migração nordestina para a cidade, mas essa só veio a ser reconhecida quando Raimundo Santa Helena leu, no coreto imperial, o Cordel da Libertação, comemorando o fim da 2ª Guerra Mundial. Desde que chegaram, a contribuição nordestina se faz presente, inclusive em grandes monumentos da cidade, como na construção da ponte Rio–Niterói e na forte influência da consolidação do samba na cidade”, escreveram Bruna Rezende Leite e Bruno Mouro, em pesquisa publicada no portal O Prelo.

Uma trajetória muito comum aos trabalhadores nordestinos que chegavam ao Rio de Janeiro, muitas vezes nos precários paus de arara, era a construção civil. Foram muitas as grandes obras nas quais pessoas vindas do Nordeste trabalharam e ajudaram a erguer. A ponte Rio–Niterói sempre é lembrada. O trabalho na indústria também foi motivo para a chegada de bastante gente oriunda da parte de cima do país.

Pau de Arara

“Trabalhei na obra da Ponte. Era muita gente, muito material. Parecia que não ia dar para acabar. Quando vi pronta, até chorei. Teve gente que morreu, conterrâneos meus”, conta José Raimundo, de 90 anos, que viveu no Rio de Janeiro dos anos 1960 até os 1990, quando voltou para seu Cariri, mais precisamente em Juazeiro do Norte, terra de Padre Cícero.

Uma música do paraibano Zé Ramalho, que hoje mora no Rio de Janeiro, fala um pouco da importância dos nordestinos na construção civil de grandes cidades do Brasil, como o Rio de Janeiro.

Falando em música, o mundialmente consagrado samba carioca tem raízes comuns com o forró. Ambos se originaram da mistura de influências africanas e europeias. O pandeiro dos sambistas bate junto com as pancadas nordestinas e no Carnaval carioca, o Nordeste já foi enredo de diversas formas e vezes. Em 1976 “Os Sertões” foi o tema da Em Cima da Hora para o desfile das escolas de samba. É considerado um dos melhores da história do carnaval carioca.

Mais recentemente, em 2002, a Mangueira entrou na Sapucaí com “Brazil com “z” é pra cabra da peste”.

Como não falar da Feira de Tradições Nordestinas, em São Cristóvão? “Há 75 anos, paraibanos, pernambucanos e cearenses trazem na mala rapadura, carne de sol, milharina e o sonho de uma vida melhor. A falta de tecnologia para comunicação proporcionou desencontros pelo bairro imperial de São Cristóvão, ponto final das caravanas e de início da espera pelos familiares. Assim, enquanto aguardavam seus conterrâneos na rodoviária improvisada, os migrantes trocavam as iguarias nordestinas por pratos de comida ou por estadia em pensões próximas. De troca em troca, a feira foi nascendo. Ao observar o interesse da população pelos produtos típicos, os caminhões que buscavam os migrantes, começaram a trazer também as especiarias. Os nordestinos que já se espalhavam pelo bairro, tomaram a rua ao lado do pavilhão, que se tornou o maior aglomerado de suas tradições fora do Nordeste”, frisam Bruna Rezende Leite e Bruno Mouro.

A cultura nordestina adentra tanto o Rio de Janeiro que existem favelas, como Rocinha e Rio das Pedras, para citar dois exemplos, que são muito caracterizas por serem habitadas por nordestinos.

“Moro aqui há 30 anos, criei minhas filhas, já tenho netos, irmãs, primas, primos e conheço muitos paraibanos como eu e pessoas de outros estados do Nordeste”, conta Antônia, moradora do Rio das Pedras.

Favela da Rocinha

Atualmente, de acordo com dados do IBGE, cerca de 1,5 milhão de nordestinos vivem no Rio de Janeiro. A maior parte concentrada na capital. Duque de Caxias, Rio de Janeiro e São Gonçalo formam o eixo de cidades com maior número de nordestinos no estado. Apesar de toda essa conexão e integração, ainda existe muito preconceito. Preconceito esse sim que deveria pegar um pau-de-arara e ir para bem longe.



Toda manhã o resumo do Rio de Janeiro

Felipe Lucena

Felipe Lucena é jornalista, roteirista, redator, escritor, cronista. Filho de nordestinos, nasceu e foi criado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, em Curicica. Sempre foi (e pretende continuar sendo) um assíduo frequentador das mais diversas regiões da cidade do Rio de Janeiro.

Comente

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui