Foto: João Pequeno


“Mas é claro que eu fiz pensando no espaço! Como é que poderia eu receber um espaço sensacional como aquele e não querer usar?”. Ao telefone, o espanto de Carlos Vergara ante a questão, que lhe soava deveras óbvia, batia de frente com a observação do entrevistador, sobre um fator não raro subestimado pelas mostras afora, no Rio ou fora. A harmonia entre as obras criadas/escolhidas e o local de exposição muitas vezes passa batida, impedindo a melhor apreciação dos trabalhos, por motivos que vão de distribuição espacial a (especialmente) iluminação inadequada. 



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Toda essa introdução, excepcionalmente fugindo das regras do lead jornalístico, vem para dizer que “Prospectiva” é o oposto desses problemas tão comuns em exposições de artes plásticas. Prorrogada por mais uma semana no Museu de Arte Moderna, a atual mostra de Carlos Vergara dá um um tempo extra para quem quiser conferir uma das melhores combinações entre obras artísticas e seu espaço de exposição. 

Na verdade, uma outra combinação – entre quatro trabalhos –, “Prospectiva” fica em cartaz até o próximo domingo (19), Esta quarta (15) é a última oportunidade para vê-la de graça, conforme o calendário do MAM, que abre entrada gratuita nesse dia da semana.

Embora até pareça, as obras não foram todas criadas especialmente visando ao MAM. Mas esse é o papel da série que dé nome à mostra. “Prospectiva” reúne as três maiores pinturas já feitas pelo artista, natural de Santa Maria (RS). Recentes e, até então, inéditas, elas foram pintadas por Vergara em 5,40m x 5,40m cada, a partir de monotipias feitas por ele no sítio arqueológico do Cais do Valongo – onde funcionava o porto da chegada de navios negreiros, durante a escravidão – e em seu ateliê, em Santa Teresa.

Telas de ‘Prospectiva’ e ‘Natureza Inventada’ dialogam com esculturas – João Pequeno


Os trilhos do bonde são parte da inspiração de Carlos Vergara no uso constante que ele faz desta técnica de gravação em uma única prensagem, trabalhando-as de diferentes formas em seguida. Os caminhos lhe servem de inspiração, como em seus mais recentes sudários, que também compõe parte da mostra. Eles foram pintados em monotipias prensadas durante viagem, em maio de 2019, ao Sul da França, onde Vergara percorreu as trilhas das Três Marias – Madalena, Salomé e Jacobina. “Eu nunca viajo a turismo, somente. Minhas viagens são todas de trabalho”, ressalta o artista. 

“Sudários” foram outra parte da exposição, em um corredor separado das demais. Eles reúnem cerca de 200 lenços pintados por Vergara a partir de monotipias desde 2003, quando iniciou seu trabalho sobre os Caminhos do Sagrado nos Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul, passando por Istambul e Capadócia, na Turquia (2006-2008); Pompeia, na Itália (2009); Serra da Bodoquena, em Mato Grosso do Sul (2017);  Caminho de Santiago de Compostela, no norte da Espanha (2015); Cazaquistão (2010); e Rio Douro, em Portugal (2018). 

Foto: João Pequeno

Pendurados em colunas de quatro ou cinco lenços – próximas, mas não juntas umas das outras –, os sudários de Vergara formam mosaicos que mudam à medida que o visitante passa pelo corredor. 

Pelas frestas que se abrem e se fecham, o olhar passeia pelas imagens que se mostram em cada espaço: outras colunas de sudários suspensos no espaço tridimensional, diferentes incidências de luz entre as brechas e sobre os lenços quase translúcidos e outros visitantes – que, involuntariamente, interagem e fazem parte da paisagem. Cada passo entre os sudários apresenta aos olhos uma obra diferente, conforme todas as perspectivas que incidem.

Foto: João Pequeno

Visitantes interagem ao passar pelos sudários e passar a fazer parte da paisagem

De volta ao salão principal, a “Prospectiva” não está só. Ela interage na perspectiva do olhar sobre o espaço com as dez esculturas de aço do núcleo “Natureza Inventada”. Conjugadas, ainda, com duas pinturas (3m x 6m e 2m x 6m, respectivamente), elas são dispostas em torno de uma mesa, também de aço. Dentre suas frestas, se vê os intervalos de cores e formas, tanto da própria série quanto da que dá nome à exposição.

Foto: João Pequeno

Por fim, o último bloco traz uma releitura de seu “Empilhamento” – coluna formada por bonecos de papel kraft e papel corrugado empilhados, no terceiro andar do museu.

Carlos Vergara – Prospectiva

MAM (Museu de Arte Moderna). Av. Infante Dom Henrique, 85, Aterro do Flamengo (altura do Castelo). Tel.: 3883-5630. Terça a sexta, das 12h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 18h. Até 17 de novembro. Entrada: R$ 14 (inteira) / R$ 7 (meia). Grátis às quartas-feiras.

+Mais!

Exposições

Egito Antigo – do Cotidiano à Antiguidade

Cerca de 140 peças, sendo 89 do Museu Egípcio de Turim, trazem para os dias de hoje tumbas, sarcófagos, desenhos e objetos pessoais que ajudam a entender a cultura, a ciência e a vida cotidiana no Egito dos faraós, de 4.000 a.C a 30 a.C.

CCBB. Rua Primeiro de Março, 66, Centro (em frente à Candelária). 

Tel.: 3808-2000. Quarta a segunda, das 9h às 21h. Até 27 de janeiro. Entrada gratuita.

Alma do Mundo – Leonardo 500 Anos

Sob a curadoria de presidente da Academia Brasileira de Letras, Marco Lucchesi, homenageia o multiartista e cientista da Renascença nos 500 anos de sua morte, com 70 obras do acervo da BN, com destaque para um exemplar do livro “A Divina Proporção”, de Luca Pacioli, com ilustrações de Leonardo Da Vinci (foto abaixo). Peças de outros museus e institutos com base em seus estudos também compõem a mostra, assim como obras contemporâneas de artistas como Ana Maria Maiolino, Angelo Venosa e Waltercio Caldas relacionadas ao universo “davinciano”. 

Biblioteca Nacional (Espaço Eliseu Visconti). Rua México, s/nº (fundos da biblioteca), Castelo. Visitação: segunda-feira, das 12h às 17h; terça a sexta, das 10h às 17h; sábado, das 10h às 14h30. Até 25 de janeiro. Entrada gratuita.

 (Divulgação)


Fulvius

Única brasileira participante da coletiva “Pincel Oriental”, com seis colegas chineses, há um ano, Paula Klien volta a mostrar sua técnica de pintura em nanquim no mesmo local. 

 Centro Cultural dos Correios

Rua Visconde de Itaboraí, 20, Candelária. Tel.: 2253-1580. De terça a domingo, das 12h às 19h. Até 26 de janeiro. Entrada gratuita.

 (Divulgação)


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