Projeto da Prefeitura vai estimular o uso de bicicleta no Rio - Alexandre Macieira/Prefeitura do Rio

Com belezas de quase arrombar as retinas, como diz a música “Carioca”, de Chico Buarque, e um clima quente praticamente o ano todo, o Rio de Janeiro tem tudo para ser uma cidade ideal para os transportes não motorizados, como as bicicletas. Contudo, devido a alguns problemas, essa condição é freada.

A cidade do Rio de Janeiro tem mais de 450km de ciclovias. A título de comparação, de acordo com o site Pedalla, o Rio está em terceiro neste ranking brasileiro, perdendo apensas para São Paulo e Brasília. Segundo a Prefeitura da capital paulista, São Paulo tem uma malha cicloviária com 681 km de extensão.

Mapa das ciclovias do Rio

Todavia, especialistas questionam a utilidade prática, do ponto de vista funcional de uma cidade, das ciclovias cariocas. “É preciso reconhecer que nessa malha são computadas algumas situações pouco adequadas, como ciclofaixas que ocupam a quase totalidade de calçadas e ciclovias com excesso de obstáculos e interrupções. Algumas das últimas ciclovias construídas na cidade tornaram-se alvo de críticas, como a ciclovia da Avenida Niemeyer, a Tim Maia, parcialmente destruída pela força de ressacas não previstas no cálculo de sua construção, ou a ciclovia da Zona Oeste, da qual se afirma ter sido excessivamente cara e mal planejada. O programa cicloviário do Rio de Janeiro foi visto como parte do embelezamento da orla, sendo uma opção de lazer. Ao ser assumido pela área ambiental, tornou-se uma alternativa ao transporte motorizado. Nos últimos anos, no entanto, ocorreu uma redução dos investimentos no programa de ciclovias”, destaca o arquiteto, urbanista e ciclista Roberto Anderson.

A Ciclovia Tim Maia, que liga o Leblon à Barra da Tijuca, ficou marcada por sucessivos desabamentos no trecho entre São Conrado e Vidigal. O primeiro, e mais trágico deles, aconteceu em abril de 2016, três meses após a inauguração do trecho, quando uma forte onda, durante uma ressaca, derrubou dois blocos de tabuleiro da estrutura e duas pessoas morreram. Outros dois desabamentos aconteceram em fevereiro e abril de 2019, desta vez devido a deslizamentos de encostas durante grandes tempestades. Outra tempestade causou um afundamento de pista num trecho em superfície, na praia de São Conrado.

Outro eixo desta roda é que boa parte das ciclovias da cidade estão nas áreas da orla, deixando regiões com grande densidade populacional como as zonas Norte e Oeste de fora.

A partir de 1999, foram construídas ciclovias na Zona Oeste (AP-5) e, em menor escala, na Zona Norte (AP-3), que reduziram o desequilíbrio na distribuição espacial em favor da Zona Sul (AP-2) e Barra (AP-4)”, frisa Roberto Anderson.

Um problema leva a outro. Sem ciclovias funcionais e seguras, os ciclistas correm riscos. Desde 2010, como mostra um levantamento feito pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), quase 13 mil internações hospitalares causadas por atropelamento de ciclistas foram registradas no Sistema Único de Saúde (SUS). Os mesmos dados apontam para o gasto de R$ 15 milhões todos os anos para tratar ciclistas traumatizados em colisões com motocicletas, automóveis, ônibus, caminhões e outros veículos de transporte.  Além disso, na última década 13.718 ciclistas morreram no trânsito após se envolverem em algum acidente, 60% deles em atropelamentos.

No Rio de Janeiro, o índice de ciclistas acidentados subiu 94% no período destacado, de 2010 a 2020. É um dos estados com maior variação neste número, portanto, um dos com mais acidentes, ficando atrás de Rio Grande do Norte (1.250%), Pernambuco (678%), Mato Grosso do Sul (400%), Mato Grosso (240%), Minas Gerais (129%), Santa Catarina (143%), Amapá (117%), Ceará (110%), Sergipe (100%).  Embora sejam dados estaduais, vale ressaltar que a maioria dos casos se deu na capital ou na Região Metropolitana.

Fonte: Ministério da Súde

Quando o assunto é o número de mortes de ciclistas após esses acidentes, os dados revelam, mais uma vez, o Rio de Janeiro no pelotão de frente. Com aumento de 6,1%, ficamos atrás, somente, de São Paulo (16,3%), Paraná (10,1%), Santa Catarina (9,1%) e Minas Gerais (7,8%). Em 2019, no Rio, 32 pessoas que estavam pedalando, sofreram acidente e morreram. No ano de 2010, foram 86.

Os dados mapeados pela Abramet indicam que, em média, 850 ciclistas morrem todos os anos por envolvimento em acidente de trânsito no Brasil. Cerca de 60% das mortes foram registradas nas regiões Sul e Sudeste.

“No trânsito, o maior deve sempre cuidar do menor, ou seja, o carro motorizado deve ter o cuidado maior com o ciclista. É fundamental que conheça as regras de trânsito e cumpra as regras de trânsito. Devem evitar transitar por vias que não oferecem infraestrutura adequada ou sem equipamentos de segurança previstos em lei, como de proteção individual, lanternas, campainhas e espelhos retrovisores”, alerta Antonio Meira Júnior, presidente da Abramet.

Para a Abramet, a falta de infraestrutura adequada nas cidades, combinada à falta de campanhas educativas e de prevenção voltadas ao ciclista são o principal motivo do crescimento dos indicadores de vítimas. “É preciso reconhecer que ao longo dos últimos anos houve melhorias na estrutura de algumas cidades, sobretudo em grandes capitais como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. No entanto, essas mudanças não acompanharam a crescente demanda de pessoas que utilizam as bicicletas como meio de transporte, esporte ou lazer”, complementa Meira Júnior.

Os médicos de tráfego consideram que o uso de bicicletas no Brasil, antes associado ao lazer e à prática de exercícios, passou a ser adotado para atividades profissionais, especialmente serviços de entrega, aumentando a população de ciclistas no trânsito. “Diversos fatores estimulam essa migração, como o excesso de congestionamento nos grandes centros, o preço do combustível e o custo módico do veículo. Por isso, a bicicleta tornou-se opção competitiva de transporte, o que exige ainda mais nossa atenção”, disse o médico Carlos Eid.

Outra pedra no caminho do ciclista carioca é a segurança. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), analisados pelo Instituto Rio21 e publicados pelo DIÁRIO DO RIO em fevereiro deste ano, mostram que em 2020 foram registrados 1351 furtos e roubos de bicicletas no município do Rio de Janeiro. Os números apontam para a diminuição de 7,3% nos casos registrados em comparação com o ano anterior (2019). Contudo, essa redução deve-se à significante queda do número de furtos registrados (10%), visto que os casos de roubo aumentaram no último ano.

O urbanista e ciclista Roberto Anderson relata como foi, recentemente, quando teve sua bicicleta roubada no Rio de Janeiro. “Ao entrar feliz e confiante com a minha nova (e cara) bicicleta na Rua Muniz Barreto, passando pela ciclofaixa existente na calçada após a Universidade Santa Úrsula, um sujeito, enrolado num cobertor desses de moradores de rua, me deu um violento empurrão, que me jogou no asfalto. Por muita sorte, não fui atropelado por algum carro. Em seguida, o sujeito fugiu levando a bicicleta. Corri atrás, gritei pega ladrão, até encontrei um motoqueiro solidário, mas nada”.

A Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro informou que “um grupo de trabalho está sendo formado na Prefeitura do Rio para avaliar,  identificar  e criar projetos sobre o uso da bicicleta e de outros  meios  de  transporte  de  pequeno porte  não  poluentes,  como  patins,  patinetes  e  skate.  Em  dez  dias,  representantes de nove órgãos municipais deverão ser indicados para o início das reuniões. Com  458  quilômetros  de  ciclovias  e mais de quatro mil bicicletários, a cidade quer aproveitar  essa  infraestrutura  para  melhorar  a  mobilidade  urbana  de  modo sustentável. Para  isso,  os  integrantes  do grupo de  trabalho terão que analisar o sistema  atual  e  propor  estratégias  para  a  sua expansão, conservação  e  integração  aos meios de transporte coletivo. O grupo de trabalho terá ainda que propor a normatização do sistema e encaminhar sugestões que estimulem o uso de meios de locomoção não poluentes. A proposta também leva em consideração o compromisso da  cidade de neutralizar emissões de gases até 2050, sua vocação  para  o  transporte  urbano  sustentável e os investimentos já feitos em ciclovias, ciclorrotas e faixas compartilhadas. Segundo  pesquisa  sobre  o  Impacto do Uso da Bicicleta no Rio, conduzida em 2018 pelo Centro Brasileiro de Análise e  Planejamento  (Cebrap), 36%  das  viagens de ônibus poderiam ser feitas à base de pedal. Mas, no Rio, as pessoas ainda utilizam  frequentemente  o  ônibus  para se  locomover.  Em  relação  aos  trajetos, 27% têm até 5 quilômetros e 9% têm entre 5 e 8 quilômetros”.

Para que toda a cidade do Rio de Janeiro se torne, de fato, atrativa, funcional e segura para os ciclistas, temos um longo caminho pela frente.

1 COMENTÁRIO

  1. Duas piadas cicloviárias do carioca:
    1. A ciclovia da Rio Branco, que vai do nada a lugar nenhum: pra ir pro Museu do Amanhã passear, vc precisa pedalar pelos trilhos do VLT. Pra ir pro aterro, cruzar pistas e mais pistas de carros.
    2. A ciclovia de dentro de Botafogo, coberta por mesas de bares sem cerimônia nenhuma, cheia de pedestres (pq ocupa a calçada), e que acaba no meio do nada também, te largando na pista cheia de carros.

    Espero que a equipe de trabalhos também avalie essas situações sem lógica, além de melhorar o transporte pela cidade de quem pedala! Bicicleta não é mais lazer hoje em dia, é trabalho e atividade física também.

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