A terceira e última matéria da série #RiodeLixo é sobre Gramacho, que já foi o maior lixão da América Latina e, apesar de ter sido oficialmente desativado ainda funciona, recebendo grandes quantidades de resíduos diariamente. Como o lixo continua sendo despejado lá e não há muita estrutura social para os moradores, muitos problemas acontecem por conta disso. Contudo, existem propostas para solucionar o que há de errado.

Atualmente, no bairro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, vivem cerca de 28 mil pessoas. A grande maioria delas em grave situação de vulnerabilidade social. São mais de 12 mil crianças e boa parte delas sem vagas nas escolas locais, dependendo de sorteios para conseguir estudar, enquanto seus pais sobrevivem com baixíssimas rendas.

“Aqui tudo é difícil. A gente passa muita dificuldade, um tenta ajudar o outro, mas falta de tudo para nós”, conta Antônio Carlos, ex-catador e morador do Jardim Gramacho.

Foto: Wikipedia-Commons

Moradia e saúde são outros problemas na região. A maior parte das casas próximas ao lixão são barracos de madeira. Há residências ao lado de rios e mangues, poluídos pelo chorume gerado dos resíduos despejados em Jardim Gramacho. A situação ocasiona muitas doenças. Entre elas, a hanseníase.

O Brasil é o segundo do mundo em número de casos de hanseníase, atrás apenas da Índia. Em 2017 foram 26.800 casos, contra 25.218 em 2016. A doença deveria ter sido eliminada em 2015, caso tivesse sido cumprida a meta da Organização Mundial de Saúde.

O chefe do Laboratório de Hanseníase do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Milton Ozório Moraes, conta que as pessoas com essa doença chegam de bairros e municípios com bolsões de pobreza, como Queimados e Duque de Caxias – incluindo Jardim Gramacho. Sem tratamento, eles passam mais tempo podendo transmitir a grave doença.

“Nos últimos anos, foi investido quase 1 bilhão e meio em Gramacho, mas os problemas continuam lá. Através de termo de ajustamento de conduta (TAC) entre o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e a Reduc (Refinaria de Duque de Caxias) foi um 1 bilhão. Um fundo de valorização e melhorias urbanísticas, aprovador por lei municipal, tinha 35 milhões para saneamento e moradias. Além de um acordo entre a Gás Verde e a Reduc, no qual foi antecipado R$ 420 milhões para captação de gás na região. Tudo isso nos últimos anos, desde a desativação do lixão, porém, os problemas continuam lá”, conta Sérgio Ricardo, do Movimento Baía Viva.

Chorume, que vem de Gramacho e cai na Baía de Guanabara

Todavia, existe uma proposta que pode mudar essa triste realidade. A Empresa Catarinense de Energias Renováveis (ECER) propõe uma saída. A ideia é transformar passivo ambiental (lixo), em energia limpa e renovável.

“O processo se dá através do aquecimento do lixo e não da incineração, sem combustão. Por isso não polui. As moléculas do lixo são separadas e a ação gera a energia líquida (Petróleo), gasosa (gás) e sólida (carvão). De todo o lixo, somente ferro e vidro não entram nesse procedimento, mas esses são facilmente recicláveis e a ideia engloba, também, parceria com cooperativas de catadores, entre outras ações sociais, como a instalação de ecobarreiras na Baía de Guanabara para conter os resíduos e facilitar a limpeza. O petróleo gerado nessa condição proposta por nós, inclusive, é de altíssima qualidade, melhor até que a do Pré-Sal”, conta Roberto Bastos Pirolise Johnny Kurtz, diretor da BNPetro, empresa parceira da ECER neste projeto para o Jardim Gramacho e a Baía de Guanabara.

A região de Gramacho e da Baía de Guanabara interessam a ECER por conta da grande quantidade de lixo e porque o Rio de Janeiro, embora esteja em uma profunda crise nesta área, ainda tem uma histórica estrutura montada para os mercados de petróleo e gás.

Para o projeto, que foi constituído na cidade de Caçador, em Santa Catarina, sem apoio público, todo com tecnologia nacional e sem precedentes no resto do mundo, entrar em prática no Rio de Janeiro basta acertar com governantes. A ECER garante que não precisaria de dinheiro público para começar a atuar.

A gestão pública precisa entrar, na sequência à implantação da ideia ou até mesmo antes, com estrutura social para que os moradores de Jardim Gramacho tenham uma vida, pelo menos, mais digna.

Gráfico da ECER que mostra a quantidade de lixo e quanto ela pode gerar de energia neste processo

Entre os dias 1 e 5 de junho de todos os anos acontece a semana mundial do meio ambiente. A questão do lixo está ligada diretamente a isso. É preciso debater e encontrar soluções para esse problema que assola todo o estado do Rio e boa parte do Brasil e do mundo. “Até no lixão nasce flor”, diz um verso da música “Vida Loka I”, dos Racionais Mc’s. Existe o problema, porém, há também soluções e elas precisam ser postas em prática.

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