Os que estamos vivos neste momento no Brasil, podemos dizer que somos sobreviventes. Mas não que estejamos salvos. Nenhum de nós está com o atual presidente. Por isso, é preciso falar sobre o que vivenciamos, como sobrevivemos, e o que testemunhamos. É preciso falar muito, incansavelmente, como se fala do genocídio de judeus, de armênios, de cambojanos, e de hereros e namas na África. Que sejam publicados todos os diários do confinamento. 500 mil brasileiros mortos pela Covid-19, pela ação do seu próprio governo, é um fato importante demais, terrível demais, para que não o registremos de todas as formas possíveis.

O mais absurdo é que sabemos que, daqui a alguns meses, esse triste patamar estará superado por marcas ainda maiores.

É preciso contar a nossa apreensão crescente, nos primeiros meses de 2020, com a marcha do vírus em direção às terras brasileiras. Como tínhamos a certeza da sua chegada e como víamos que nada era feito para retardar esse encontro fatal. Como nos angustiávamos com o sofrimento dos cidadãos e dos médicos e enfermeiros de Wuhan e, depois, do Norte da Itália e de Nova Iorque. Mal sabíamos o que nos esperava. Com o vírus no Brasil, vimos a, aparentemente, inexorável marcha da transmissão inicial entre amigos e parentes de pessoas chegadas do exterior passar para a transmissão comunitária. O vírus morava entre nós e estava livre para gestar novas variantes.

De repente, a indicação do fechamento de escolas, comércio, escritórios, o isolamento em casa, e a perplexidade dos que não mais poderiam viver do seu trabalho diário nas ruas. Quem era casado, tinha filhos, com eles ficou. Quem morava só, só ficou. Não mais sabíamos quando voltaríamos a encontrar os familiares, os amigos. A angústia cresceu no nosso peito. Tornou-se difícil, estressante demais assistir o noticiário. A cada imagem dos hospitais lotados eu, você, e muitos outros sentíamos o ar nos faltar, o coração palpitar e os sintomas da doença tomarem conta do nosso corpo. 

O ministro Mandetta dava entrevistas coletivas que deveriam servir para nos assegurar que alguém estava no comando. Mas um ar de político tradicional no seu discurso não contribuía para trazer confiança. Era o que tínhamos mas, de um momento para o outro, nem mais isso. No seu lugar, um Teich assustado e claramente perdido. E depois um Pazuello, general de fala autoritária, mas submisso ao presidente, que sabíamos não entender nada de saúde pública. Lembramos o dia em que Bolsonaro, com olhar siderado, veio à TV nos afirmar que não devíamos temer o que era só uma gripezinha. Nesse dia as panelas foram batidas com gosto. Pela primeira vez em muito tempo, o fazíamos para dizer que não seríamos levados ao destino trágico que nos esperava sem um grito de protesto. 

Fomos nos acostumando a termos médicos, como taxa de transmissão, isolamento social, medidas não farmacológicas, máscaras PFF2, respiradores, pronação e intubação. Sofremos com a incapacidade dos hospitais de atenderem a todos os que batiam às suas portas.  Nos horrorizamos com os que agonizaram sem oxigênio e com a corrida desesperada de seus parentes carregando cilindros pelas ruas de Manaus. E também com a tristeza da morte solitária, das câmaras frigoríficas para os corpos empilhados, das centenas de covas abertas por escavadeiras, dos enterros às pressas, muitas vezes noturnos.

O tempo passou arrastado. Dia e noite se confundiram no confinamento de nossas casas. Medo da aproximação com o entregador do supermercado ou da farmácia, medo ao entrar no supermercado, e empatia por aqueles que continuaram a trabalhar correndo riscos. Doar para alguma organização que recolhia alimentos para os mais necessitados, ou mesmo participar dessas ações, ajudou a dar sentido à nossa sobrevivência.

Para os que puderam praticar o isolamento social, o trabalho em home office deu alguma sensação de conexão com a normalidade. O zoom e seus similares nos salvaram da loucura de conversar com as paredes. Contatamos antigos amigos, assistimos lives sobre os mais variados assuntos e, quando já estávamos cansados, fomos brindados por apresentações sublimes de Bethânia, Gil, Lenine e Caetano. Eles nos transmitiam a certeza de que o Brasil que amávamos persistia vivo, esperando a hora de voltar a florescer.

As notícias das perdas não pararam de chegar. Às vezes, de conhecidos de conhecidos, outras, de amigos ou parentes próximos. O luto disperso, quase anônimo, se acumulando aos milhares. 100 mil brasileiros mortos nos pareceu um marco absurdo. Escalamos rapidamente outros marcos das centenas de milhar. À medida que passávamos de 200, 300 mil mortos, duvidávamos se éramos mesmo capazes de sermos sensíveis a esse imenso sofrimento.  

Cá estamos agora num estranho momento de travessia. Já há vacinados, mas não em número suficiente que tragam segurança a todos. A taxa de contaminação voltou a patamares altíssimos e suspeita-se de uma terceira ou quarta onda. Mesmo de máscaras, a vida vai voltando à quase normalidade, empurrados para as ruas que fomos pelo governo, que sonegou vacinas no tempo certo e auxílio econômico continuado a quem precisava. Passamos por uma guerra que atingiu milhares de famílias e dilacerou nossas emoções. Essa guerra não acabou. E ainda não sabemos o que aprendemos de tudo isso.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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