Foto: Roberto Anderson

Estamos em plena campanha eleitoral e, no entanto, aqueles que se aventuram nas ruas pouco percebem o clima eleitoral. Não há painéis, placas, faixas, nada. Aqui e ali apenas alguns candidatos entregando seus panfletos a eleitores ressabiados e desconfiados. A pandemia afastou parte dos eleitores das ruas e aqueles que se aventuram a sair olham qualquer papel que lhes é oferecido como possível portador do vírus.



Toda manhã o resumo do Rio de Janeiro

Essa invisibilidade do processo eleitoral não era habitual. Em eleições passadas a cidade se enchia de outdoors, de painéis nas ruas, de propagandas coladas em postes, tapumes e paredes. E de cabos eleitorais entregando panfletos em cada esquina. Sim, talvez fosse excessivo, havia muito abuso e poluição visual na cidade.

Uma situação que não deixa saudades, apesar das oportunidades de trabalho que oferecia, era a necessidade de guardadores para os cavaletes de candidatos nas calçadas. Os contratados passavam o dia sem nada para fazer, além de estar ao lado do cavalete. Era a negação da sua existência como indivíduos, já que eram apostos dos cavaletes.

Outra situação abusiva eram as pichações em muros das casas e a os cartazes colados em postes, orelhões e equipamentos públicos. Sujava-se a cidade em nome de um evento passageiro que torrava milhões. Quem tinha mais condições de poluir ganhava mais visibilidade e mais possibilidades de ser eleito. Não, essas práticas não deixaram saudades.

Mas talvez, digo talvez com todas as ressalvas necessárias, os tribunais eleitorais tenham exagerado no controle dos meios de propaganda eleitoral. A democracia entre nós é algo frágil, já suprimida algumas vezes. Há sempre um projeto de ditador maquinando como nos roubar liberdades. Por isso, as eleições devem ser festejadas. É justo que a cidade modifique temporariamente a sua roupagem para nos alertar que está na hora de exercer o sagrado direito de escolher nossos representantes e nossos governantes.

É possível, e desejável, que se encontre o equilíbrio entre a situação anterior de empastelamento da cidade e a atual de assepsia total. Cartazes de proporções decentes removíveis, formas aceitáveis de marcar a passagem das eleições poderiam ser utilizadas. Festejemos, estamos numa democracia! 

Roberto Anderson
Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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