Há vários anos já vinha se cogitando sobre a necessidade de se realizar a restauração da cobertura de cobre do Teatro Municipal. Entre outros problemas, ela já apresentava perda de estanqueidade das chapas de cobre, permitindo a passagem da umidade. Algumas chapas examinadas permitiam a constatação a olho nu das micro-fissuras existentes. Havia o desgaste natural, afinal o Theatro estava fazendo cem anos. Mas também ocorreram intervenções equivocadas ao longo desse tempo. Foram encontradas, por exemplo, chapas presas com pregos, o que permitia a entrada da água pela perfuração realizada, e um produto de vedação, que havia sido aplicado, já deteriorado e fixado ao cobre. Além disso, as pessoas responsáveis pela manutenção do edifício terminavam por ajudar no desgaste ao pisar nas partes planas e mesmo sobre partes mais frágeis, como cúpulas e ornatos.

As calhas em cobre também apresentam problemas, como rachaduras e perfurações por pregos, que prejudicavam a sua estanqueidade. E havia obstruções nos tubos de queda. Tantos problemas levaram à ocorrência de infiltrações nos tetos artísticos das rotundas e do corpo central sobre o foyer. Neste último, o painel de Visconti chegou a ser bastante danificado.

Diversas alternativas técnicas foram buscadas para essa restauração. Chegou-se a se pensar na substituição total do madeiramento, das chapas planas e da maior parte dos ornatos em cobre. Tal alternativa, no entanto, era excessivamente cara e não previa o aproveitamento dos ornatos originais, verdadeiras obras de arte.

Mas, em 2008, o Theatro obteve o patrocínio do BNDES e da Petrobras, o que, afinal, possibilitou a execução da obra. Foi escolhida a empresa Ópera Prima para a condução dos trabalhos de restauro da cobertura e, para a execução dos serviços em cobre, foi contratada a empresa N.Didini, que já havia executado serviços semelhantes na cobertura de cobre da Catedral da Sé de São Paulo. A obra foi acompanhada pelo IPHAN e pelo INEPAC.

A restauração foi executada baseando-se na premissa de que os ornatos deveriam ser mantidos após serem recuperados. Eles foram tratados caso a caso, promovendo-se a “lanternagem”, a soldagem das partes soltas, e a substituição de partes deterioradas. Somente as chapas planas foram integralmente substituídas.

A obra teve início pelas duas rotundas e pelo corpo central sobre o foyer, elementos na parte frontal da cobertura. Posteriormente a obra foi avançando para outras partes da cobertura. Cada peça desmontada cuidadosamente recebeu uma identificação indicativa de sua posição, material e função. Numa ficha foram lançados os problemas encontrados e as intervenções necessárias.

A obra contemplou também o madeiramento abaixo das chapas de cobre. Madeiras ou partes delas que estavam comprometidas foram substituídas usando o ipê cumaru. No madeiramento do corpo central sobre o foyer foram encontradas madeiras originais em pinho de Riga e outras peças já substituídas.

Uma característica conhecida das coberturas de cobre é a cor verde, resultado da pátina que se forma ao longo do tempo. A substituição das chapas lisas produziria uma diferença de cor entre as novas chapas e os ornatos já esverdeados. Assim, optou-se por patinar as novas chapas, visando uma apreensão mais uniforme do conjunto. O processo consistiu em aplicar um produto, capaz de provocar a pátina, deixando as mesmas por um tempo numa estufa com nuvem de água em dispersão. Na presença da umidade, a reação necessária se produzia.

O douramento dos ornatos foi um capítulo à parte na restauração do Theatro Municipal. No passado já haviam sido feitas prospecções que encontraram resquícios de douramento nos mesmos. Ao se fazer a sua remoção para o restauro, foi possível comprovar a existência desse douramento, ainda existente em algumas partes. Fotos antigas, especialmente as de Augusto Malta, também confirmaram esta percepção. No entanto, não foram encontrados no Brasil profissionais que realizassem o douramento sobre cobre no exterior de edificações.

Pesquisas que realizei me levaram ao atelier de Fabrice Gohard, de Paris, que havia feito as obras de douramento da cúpula da Ópera de Paris, da chama da estátua da liberdade em Nova Iorque e da cobertura do Palácio de Versailles. Foi realmente uma grande sorte tê-lo tido à frente do douramento da cobertura do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que agora segue lindo, nos encantando por pelo menos mais cem anos.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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