Laura Cordioli - Foto Jane Deluc

Nesse segundo abril da Covid-19, o Brasil, representado por um inimigo do meio ambiente, participou da Cúpula do Clima, convocada pelo presidente Joe Biden. Pressionado, o país melhorou em dez anos a sua proposta de alcance da neutralização das emissões de carbono, e repetiu promessas anteriores, que vem sabotando, de eliminação do desmatamento ilegal até 2030.

Essa última meta, se cumprida, deverá ser principalmente através de uma severa fiscalização na Amazônia, ponto mais crítico, com contribuições de redução também do desmatamento na Mata Atlântica. Já a neutralização das emissões, além de se dar pela redução do desmatamento, ocorreria ainda pelo reflorestamento de extensas áreas do país, e pela redução das emissões de gases do efeito estufa. Nesses dois últimos aspectos, as cidades brasileiras teriam um papel muito importante, ainda pouco assumido.

É urgente que se passe a ver as cidades como parte das soluções para os problemas ambientais, e agora para a crise climática. Isso exige uma mudança de paradigma. Até muito recentemente, a natureza era vista como um sistema complementar à cidade, a serviço da mesma, já que estaria a serviço dos seres humanos. A cidade estruturava seu meio ambiente imediato utilizando os recursos e a capacidade de depuração da natureza, ou seja, retirando recursos e devolvendo impurezas, como lixo e poluição. A cidade estaria numa posição hierarquicamente superior ao campo e às áreas naturais, o que justificava a prática predatória.

A percepção da natureza como sistema ambiental a ser preservado, com o qual a cidade deve se relacionar e se integrar, é uma proposição que precisa da adesão dos urbanistas e administradores públicos. Há um sentimento crescente de que as cidades são parte fundamental do problema ambiental e da sua solução. Não se pode alcançar a sustentabilidade em nível global sem primeiro realizar progressos nos espaços urbanos. As crises climática e ambiental, em grande medida, são causadas pelo crescimento e pela forma como se dá a utilização dos recursos e a produção de bens. E isto se concentra, na maior parte dos casos, nos espaços urbanos, onde já vivem 55% da população mundial.

Arborizar nossas cidades seria uma contribuição significativa ao programa de neutralização das emissões de carbono do Brasil. Desde a época colonial, as cidades brasileiras cresceram pela supressão de áreas florestadas ou alagadas. No Rio de Janeiro, um dos primeiros plantios de árvores em ruas se deu com as figueiras em frente à Santa Casa de Misericórdia, no final do século XIX. Depois, as reformas urbanas do Prefeito Pereira Passos ampliaram muitíssimo esta prática, que continuou sendo exercida pela municipalidade. O Mutirão Reflorestamento, que vem reflorestando encostas, é um belo desdobramento dessa ideia. Mas, como todos constatamos, a arborização urbana ainda é muito deficiente, especialmente em bairros da Zona Norte e Oeste da cidade.

Uma novidade encorajadora é a existência na cidade do Rio de Janeiro de mais de trinta coletivos de plantio de árvores, espalhados por diversos bairros. São pessoas que tomaram a iniciativa de plantar mudas de árvores em espaços onde as mesmas fazem falta. E o fazem com seus próprios parcos meios, movidos pela paixão. Os técnicos da Fundação Parques e Jardins já vêm interagindo com esses grupos, orientando-os quando necessário.

Há aí um vasto campo de trabalho, que reflete o crescente suporte dos moradores das cidades a ações em prol do meio ambiente e da sustentabilidade. As pessoas que se mobilizam o fazem não só por motivações altruístas, mas também por preocupações com questões que afetam diretamente as suas vidas, como a poluição, as ilhas de calor, as doenças causadas por esses fatores, e a vontade de morar num bairro mais verde. Capturar o carbono da atmosfera através da arborização intensiva de nossas cidades, em colaboração com a população, é um belo programa para o século XXI!

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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