De repente uma ausência, um vazio ao seu lado. Desde que começou a pandemia de Covid-19, vimos mais de 440 mil brasileiros irem embora. Famílias que perderam avós, pais, filhos, irmãos. O mundo todo sofre. Os picos da pandemia mudam de cidade para cidade, de país para país. Wuhan causou perplexidade, a Itália sofreu, Nova Iorque sofreu, O Brasil sofre, a Índia é o novo ponto focal.

Nesse período, mesmo chamados de idiotas, os que puderam, buscaram se refugiar em suas casas, perdendo a convivência, o abraço, a naturalidade do encontro. Apesar de temermos esse presente alongado, buscamos acreditar que lá na frente nos reencontraremos. No entanto, as perdas vão se sucedendo. O parente de um conhecido aqui, a irmã de uma amiga ali, o músico talentoso, o ator querido, e novamente um conhecido, o conhecido de um conhecido, e a grande atriz.

Lares ficam sem provedores, a aposentadoria da avó deixa de ser a salvação da família, o filho que era a esperança de um outro futuro já não está mais ali. São pessoas, muitas pessoas, e a maioria não conhecemos. Mas a dor dos familiares e amigos que os perderam é grande e importa. Precisam ser lembrados. Por isso, quero lembrar o colega e amigo, o arquiteto e professor da PUC-Rio Fernando Betim, que partiu há poucos dias.

Até a semana passada ele vinha dando aula, juntamente com outros professores, no atelier de projetos de revitalização do curso de Arquitetura e Urbanismo. Ele era o que abria a sala de aula remota, era o que animava os alunos e professores, era o que sabia o nome e o apelido de cada aluno, suas histórias, dificuldades e potencialidades. E agora não está mais lá. Nem em sua casa, com sua família. Na aula remota não há mais uma janelinha com o professor Betim. Não mais as indicações de bons projetos e arquitetos ou as histórias sobre os queijos de Minas e as delícias da vida no campo, que ele exercia nos fins de semana.   

Fernando Betim esteve entre os criadores do curso de arquitetura da PUC-Rio e era com paixão que se dedicava ao mesmo. Era um exímio projetista em estruturas de madeira. Em Itamonte, onde tinha seu sítio, construía experimentando técnicas tradicionais, como o adobe, a taipa de mão e a madeira. No escritório modelo da PUC-Rio, juntamente com outros professores, coordenou projetos, como o edifício do curso de Design e o futuro teatro da PUC.

O campus da universidade está pontilhado por trabalhos em que, com os alunos, experimentava novas formas e técnicas. Logo na entrada está o bicicletário, estrutura alada que indica o comprometimento da universidade com esse modal de transporte. Mais à frente, o estande de informação e, em lugar privilegiado, a praça-banco, em que banco e pergolado serpenteiam até um tablado alteado, que convida à roda de bate-papo ou a uma soneca.

Betim era a gentileza e o comprometimento com a boa arquitetura. Um cara querido por todos. Agora é lembrança, uma lacuna a mais entre tantas que existirão quando um dia pudermos nos reencontrar. Espaços vazios entre nós a nos lembrar a tragédia pela qual passamos. E que poderia ter sido muito diferente.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito lindo a forma que o texto celebra o Betim! Me fez reviver momentos em sala com ele. Obrigada por isso e muita força, professor.

  2. Nossa, Roberto, é exatamente isso. Ninguém mais está fora do alcance dessa doença terrível. Todos nós estamos de luto, a sociedade está de luto. Há mais de um ano vivemos com essa sensação angustiante de impotência. Lamento muito por essa perda. Um arquiteto, um professor. Quantas décadas de conhecimento acumulado se perderam com essa morte? E quantas ainda se perderão? Isso é devastador. E o mais trágico é não podermos ainda vislumbrar a saída. A vacinação segue em passos lentíssimos, na dependência do empenho de cada município, sem campanhas de incentivo ou mínima preocupação por parte do governo federal. Mas o que mais me angustia é saber que essas mortes serão em vão e que elas não impactam mais a sociedade. Um abraço.

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