Roberto Anderson: Buenos Aires

Colunista do DIÁRIO DO RIO opina sobre a charmosa capital argentina

Avenida de Mayo, em Buenos Aires
Avenida de Mayo, em Buenos Aires - Foto: Roberto Anderson

A julgar pela fala dos comentarisas da TV local, mais uma vez a Argentina se aproxima de um precipício. Tudo o que se diz da economia do país parece indicar o fim do mundo. Há dramaticidade e aspereza em como é descrita a situação e os políticos. O presidente e a vice-presidente estão envolvidos num perigoso jogo de poder, com ultimatos, pressões de grupos políticos em manifestações, demissões de ministros, renúncias e capitulações.

Nas ruas, o povo segue a vida, simpático, e com um humor autodepreciativo sobre a situação. O taxista fala da inflação, a senhora no restaurante sobre a impossibilidade de viajar ao exterior, e o sindicalista pergunta se não se nota o que se passa no país. O dono do quiosque onde se faz câmbio faz graça com a cotação do dia.
Depois entrega um maço de notas que permitirão ao estrangeiro viver por uns dias.

Nas ruas, o câmbio é feito com a aparência de uma atividade ilegal. Cambistas o apregoam nas calçadas como se vendessem uma droga. O interessado é conduzido a uma loja situada num subsolo ou no fundo de uma galeria. Segundo conta a senhora da casa de câmbio, esta não pode estar localizada junto às calçadas das ruas. Também não há letreiros indicando a cotação. A negociação se dá ali, no momento, e a cotação tem variações que dependem dos valores a serem trocados.

Buenos Aires está agitada. O dia ensolarado de inverno faz todos saírem às ruas. Há diversas feiras de artesanato. As crianças aproveitam a última semana de férias e os gramados dos parques se enchem de grupos que aproveitam o dia. Há turistas por todo lado, especialmente naqueles lugares mais conhecidos.

Aos domingos, na feira de San Telmo, o tango de tradição é apresentado pelo casal de dançarinos. Ela, Marisol, bela morena sobre saltos agulha, que ressaltam as curvas das pernas. Ele, alto, rosto indígena, terno surrado, com aquela manha portenha. Há também o tango em forma caricata da drag queen, que oferece a crítica mordaz da sociedade.

Em Palermo Soho os cafés e confeitarias estão cheios. Há Palermo Soho e há Palermo Hollywood, assim mesmo em inglês, sancionado pelos mapas. As pessoas têm um ar europeu que esconde que a maior parte das lojas de verduras é de bolivianos, que as lojas de conveniência são de coreanos, que os entregadores em bicicletas são venezuelanos, que os trabalhadores da construção civil são paraguaios e que diversas nacionalidades sul-americanas conduzem os carros de aplicativos.

Uma manifestação toma conta da Avenida Julio Roca e da Praça de Mayo. Vêm de diversas cidades. Há uma enorme quantidade de jovens, mas também de famílias, algumas com crianças de colo. Aparece então a face indígena da Argentina, tão diferente da classe média portenha. Tocam bumbos, seguram faixas e estandartes, que se referem à comunidade que representam. Imagens do Che e as palavras trabalhador e revolução pairam sobre as cabeças.

A marcha tem sua própria ordem, mantida por diversos participantes que vestem coletes de organizações sindicais ou partidárias. Enquanto lá na praça as lideranças discursam, nas bordas da manifestação alguns jovens jogam bola, crianças correm, casais, cansados da longa viagem, cochilam recostados às pilastras, e jovens mães acalentam seus bebês. Poucas horas depois não há mais sinal da manifestação. O taxista diz que elas acontecem quase todos os dias.

Buenos Aires é linda. É Paris, é o que o Rio um dia quis ser, tem o que o Rio já teve e destruiu (e que continua a fazê-lo). Há um gostoso ar de decadência, de lembranças de um passado melhor, e uma delicadeza no trato, que vem da educação. É uma cidade única na América Latina e é bom saber que, em contraponto aos trópicos, existe essa cidade querida.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.
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